Ilustrador italiano publica livro sobre carnaval brasileiro

Tal como os artistas viajantes dos séculos 18 e 19, o ilustrador e quadrinista Lorenzo Mattotti, italiano radicado na França, onde é referência em seu ofício, veio ao Rio no ano passado conhecer e desenhar o carnaval. O resultado da viagem, que durou dez dias e envolveu visitas a barracões, aos desfiles das escolas no sambódromo e aos blocos nas ruas, sai agora no livro Carnaval. Mattotti desenhou personagens e paisagens da festa, sob um ângulo que os brasileiros pouco olham, mas no qual se reconhecem de imediato. E ainda imprimiu nas páginas as cores e os ritmos do que viu e ouviu. "Essa é minha intenção. Meu desenho se volta para o movimento, o ritmo; e no Brasil vi uma enorme variedade de ambos. Tentei traduzir minhas impressões. Não sei se meu alvo é o brasileiro, que vai conhecer como um europeu o vê, ou o europeu, a quem apresento o carnaval. Na verdade, nunca desenho para os outros, mas para mim mesmo", diz Mattotti. "Saí à rua com uma filmadora e desenhei em cima do que registrei. Não reproduzi as imagens, que só foram ponto de partida. Como o tema é muito amplo, fiz inúmeros croquis até chegar aos desenhos. Alguns desses rascunhos também foram para o livro." O livro tem textos em português, inglês e espanhol, sobre aspectos da festa. A pesquisadora Marília Trindade Barboza coordenou e escreveu a abertura, "Uma Breve História do Carnaval", enquanto especialistas descreveram cada setor, em textos ricos e sucintos. O músico Cláudio Jorge falou sobre a bateria; o pesquisador José Carlos Rego, sobre os passistas; o ex-Rei Momo Marcelo Reis, sobre os blocos de rua (antigos blocos de sujo); o carnavalesco Fernando Pamplona, sobre os carros alegóricos (e ele é um inventor nesse ramo); o compositor Luiz Carlos da Vila, sobre as Velhas-Guardas; e a porta-bandeira da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, Selminha Sorrizo, sobre seu posto. O cantor Ney Matogrosso discorre sobre as fantasias. Ele nunca se destacou nos blocos ou escolas de samba, mas sabe, como ninguém, inventar disfarces sedutores. O olhar estrangeiro de Mattotti apreendeu a essência da festa e não é exagero dizer que seu livro tem sons das escolas e dos blocos de rua. Eles estão, por exemplo, no quadro retratando o artesão que constrói o carro alegórico no barracão. O desfile do Maracatu Brasil na Praia de Ipanema. No capítulo do carnaval de rua, há uma overdose de cores de um domingo de sol e os retratos da Velha-Guarda (vestida de verde e branco, seria do Império Serrano ou da Mocidade Independente de Padre Miguel?) e das baianas evidencia a elegância desses pioneiros do samba. No capítulo dos destaques e passistas, fica clara essa mistura de narcisismo e espírito coletivo, característica de quem sai no alto dos carros alegóricos ou sambando no chão. Nos desenhos das baterias, ele captou a confusão organizada e a pulsação dos ritmistas. Mattotti dedicou-se ao livro durante seis meses de 2005. "Logo depois do carnaval, me envolvi em outros trabalhos e só voltei aos vídeos no verão europeu (de junho a setembro). No fim do ano o livro estava pronto", conta. Carnaval será lançado na França (pela editora Casterman) e na Itália (pela Nuage). Ele é um dos mais requisitados ilustradores da Europa e faz capas para publicações consagradas como New Yorker e Vaniity Fair, além da publicidade da rede de shoppings Le Printemps, do champanhe Veuve Cliccoq e a campanha antiaids do Ministério da Saúde francês. "Trabalho por encomenda ou não. Se passo muito tempo atendendo a pedidos, sinto falta e volto a buscar só minha inspiração", comenta, acrescentando que tem recebido muitas solicitações, como esta do carnaval. Ele já havia vindo ao Brasil outras vezes mas, até o convite para fazer Carnaval, não tinha encontrado o melhor ângulo ou assunto para falar do País. "Essa é a vantagem de se produzir por encomenda, nos desperta para questões que não havíamos pensado." Carnaval faz parte de uma série da Casa 21 sobre cidades e cultura brasileira - todos desenhados por artistas convidados, brasileiros ou estrangeiros - e tem patrocínio da Esso, que deu R$ 190 mil pela a Lei Estadual de Incentivo à cultura. Já houve publicações sobre o Rio, Salvador, Belém, Belo Horizonte e as cidades históricas mineiras. O próximo será sobre as favelas cariocas. "Alan Alex, artista nascido e criado nessas comunidades, continuará a série sobre as manifestações culturais do País", diz Roberto Ribeiro, diretor da editora. "Nossa intenção é reeditar imagens que artistas faziam do Brasil no século 18 e 19 e hoje estão nos museus do mundo inteiro. Só que os suportes são deste milênio." No caso de Carnaval, a viagem ainda pode render novos trabalhos. Mattotti chegou ao Rio na semana passada e conheceu a Cidade do Samba (para onde foram transferidos, com conforto e funcionalidade, os barracões das escolas), voltou ao sambódromo e pretendia se acabar nos blocos. "Desta vez venho para me divertir, mas trouxe minha câmera porque registrar o que vejo faz parte do prazer", diz o artista. Mas não sabe se volta ao tema. "São tantas camadas de leitura, detalhes, riqueza que não sei o que fazer com todo o material. Por enquanto, este livro dá vazão a tudo que vi e senti no carnaval carioca". Carnaval. Editora Casa 21. R$95

Agencia Estado,

26 Fevereiro 2006 | 17h09

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