Andre Dusek/AE-6/4/2011
Andre Dusek/AE-6/4/2011

Imagens e diálogos comprovam farsa de promotora com auxílio de médico

Vídeos em poder do Ministério Público revelam como psiquiatra ajuda Deborah Guerner, presa desde a semana passada, a simular um transtorno mental para atrapalhar as investigações que a envolvem no esquema de corrupção do Distrito Federal

Leandro Colon e Felipe Recondo / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2011 | 00h00

Documentos e imagens obtidos pelo Estado revelam como a promotora de Justiça Deborah Guerner, presa desde a semana passada em Brasília, contou com a colaboração de médicos de São Paulo para simular um distúrbio mental e atrapalhar as investigações sobre seu envolvimento com o esquema de corrupção no Distrito Federal, conhecido como "mensalão do DEM".

Gravações de encontros dela com o psiquiatra paulista Luis Altenfelder Silva Filho, captadas pelo circuito interno da casa da promotora e apreendidas com autorização da Justiça, mostram detalhes da armação para que ela fosse considerada doente por peritos judiciais. Deborah foi afastada em dezembro de suas funções no MP do DF. Além das ações na Justiça, ela responde a um processo disciplinar no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que pode aprovar sua demissão do serviço público. Ela ainda recebe salário.

"Posso falar eufórica?", pergunta Deborah durante uma "aula" cujo objetivo era treiná-la para ser reprovada num teste de sanidade mental. "Pode. Muito excitada, eufórica e com o pavio muito curto", responde o médico. "Não tem erro, e qualquer residente de primeiro ano de psiquiatria, ouvindo você, vai falar assim: "essa menina é bipolar"", diz o psiquiatra. O marido dela, o empresário Jorge Guerner, que também está preso, acompanhava tudo. As "lições" foram dadas na sala da casa de Deborah em Brasília e ganharam o apelido de "teatro da loucura" nos bastidores da investigação.

O material foi entregue à Justiça e ao Conselho Nacional do Ministério Público. Na conversa gravada, o médico recomenda a Deborah usar roupas extravagantes para ajudar no diagnóstico de "transtorno afetivo bipolar múltiplo": "Elegante, como você é, mas meio que escandaloso. Entendeu? Elegante, mas, assim: "Bem cheguei"". O marido da promotora sugere então uma "calça justa" das cores amarelo, branco e vermelho. "Justa! Meio vulgar?", pergunta Deborah. "É cheio de cores, né ?", indaga o médico. "É, mas tem cor pra tudo quanto é lado", diz o marido. "Isso! É boa cor, aí você põe um batom vermelho", aconselha o médico a Deborah.

A promotora sai, busca roupas e mostra aos dois. "Tá fantástico esse!", reage o médico. "É só ir vestida desse jeito e falar com essa naturalidade, que os caras vão falar: "Pô, ela não se enxerga"", reforça Altenfelder. Uma outra médica, Carolina de Mello Santos, também teria auxiliado.

Ao fingir uma doença, a estratégia de Deborah, segundo a investigação, seria evitar a aplicação de alguma pena por envolvimento no escândalo de corrupção no DF, obstruir diligências - como faltar a depoimento - e garantir uma aposentadoria compulsória por invalidez, com um salário de mais de R$ 20 mil.

Deborah e seu marido são acusados, entre outras coisas, de cobrarem propina do ex-governador do DF José Roberto Arruda para garantir a proteção do Ministério Público em uma ação que contaria com a participação do ex-chefe dos promotores de Brasília, Leonardo Bandarra.

Num determinado momento da "aula médica", o marido de Deborah pergunta se os peritos podem fazer alguma pergunta "paralela" durante o exame. O médico explica diretamente à promotora: "Eles (peritos) podem perguntar: "mas se tinha época que você ficava muito eufórica?" Você vai falar: "Tinha sim! Tinha época que parecia que de repente desaparecia tudo isso! Sabe e aí meu marido até reclamava que eu ia pro shopping, comprava demais, sabe? Reclamava das minhas roupas". O psiquiatra treina Deborah a mostrar que, após a perda dos pais, passou a ter problemas mentais: "Você tem que falar com espontaneidade: "Com o falecimento do meu pai, que era tudo pra mim me senti desamparada"".

"Quando meu pai morreu eu perdi o chão - você fala! Eu fiquei muito, muito, muito, triste", ensina o psiquiatra, que cobrou R$ 10 mil por um dia por seus serviços. O teor desses encontros é uma das provas da simulação de doença mental de Deborah Guerner, segundo o Ministério Público Federal. Além disso, foram produzidos relatórios médicos falsos para "enganar" a Justiça, diz trecho da investigação. As imagens foram gravadas pelo circuito interno de segurança na casa de Deborah nos dias 29 e 30 de agosto de 2010 e obtidas pelo Ministério Público numa operação de busca e apreensão, autorizada pela Justiça, no dia 15 de setembro. Os diálogos foram transcritos no pedido de prisão do casal. No final do primeiro encontro, o médico diz: "Você viu como tá direitinho o depoimento ?". "Tá perfeito!", Deborah responde.

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