Imigrantes latinos na Espanha vivem como nas favelas do Brasil

Relator para Moradia da ONU diz que há casos de imigrantes que precisam alugar cama por hora para dormir

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

17 de março de 2008 | 13h10

Os imigrantes latino-americanos na Espanha estão vivendo em condições equivalentes à das favelas brasileiras. O alerta é do relator especial da ONU para Moradia, Miloon Khotari. Em seu relatório apresentado às Nações Unidas sobre a situação espanhola, o especialista destaca que os imigrantes sofrem discriminações no país e ainda podem ser presos por serem sem-teto. Os subúrbios de Madri e Barcelona estariam repletos desses casos de imigrantes sem teto, entre eles africano e árabes, além dos latino-americanos.   VEJA TAMBÉM PF barra 30 estrangeiros em cinco dias Saiba como agir se for barrado em aeroporto Policiais espanhóis chamaram brasileiros de 'cachorros', diz mãe Brasil ameaça restringir entrada de espanhóis no País Brasil deve adotar medidas contra espanhóis?     "A situação é muito séria para os imigrantes", alertou Khotari, que visitou uma série de bolsões de pobreza na Espanha para produzir os relatórios. "Vi pessoas vivendo em barracas, com sacos plásticos para fugir da chuva", disse. Um dos principais problemas é o de Almeria, El Ejido e Roquetas de Mar, em Andaluzia. "Vimos gente vivendo em locais de obras ou mesmo em prédios não concluídos", disse. "As condições de moradia não são adequadas e se equiparam às das favelas", afirmou.Segundo ele, há imigrantes que também passaram a apenas alugar camas para ter onde dormir. O aluguel é feito por hora. "Enquanto a economia local se beneficiou da força de trabalho dos imigrantes, não foi feito o suficiente para lidar com as necessidades de moradia dessa população", alertou.   De acordo com a ONU, a Espanha foi um dos países europeus que mais registrou construções de casas nos últimos anos. Haveria um estoque de 20 milhões de casas, para 14 milhões de famílias. Na prática, isso significa que há muita especulação e muitos contam com casas de praia. Apenas em 2005, 812 mil casas foram construídas, número maior que França, Alemanha e Reino Unido juntos. Mas em apenas dez anos, o valor da terra aumentou em 120% no país. O retorno dos investimentos imobiliários foi maior que o que se obteve nas bolsas de valores. Ainda assim, 112 mil pessoas viviam em 2001 em casas sem água encanada.   Em 2003, a ONU já havia sugerido ao governo da Espanha que criasse moradias subsidiadas para os imigrantes de baixa renda, além de lutar contra o racismo e xenofobia. "Infelizmente, há pouca evidência de que essas recomendações estão sendo implementadas", afirmou Khotari. No total, a Espanha soma cerca de 22 mil sem-teto.   "O que ganham não é suficiente para conseguir uma moradia, mas o governo também nao reconhece a situação crítica em que esses imigrantes estão", alertou. Khotari afirmou não ter visto especificamente a população brasileira. "Mas se eles estão entre os imigrantes, certamente estão sofrendo essa realidade", alertou. O governo espanhol indicou que, ao lado de marroquinos e bolivianos, os brasileiros estão entre os que mais são deportados do país em 2007.   "Muitos precisam sair para comprar água e tudo o que necessitam. O problema é que, na Espanha, a lei criminaliza os sem-teto e sempre há o risco de serem presos", afirmou. "A lei espanhola para os imigrantes, ao lugar de garantir o direito à moradia, aponta para isso como uma obrigação do residente para que possa encontrar trabalho", ataca o relatório da ONU.

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