IML do Recife leva 3 dias para liberar corpos

Trabalho de necropsia de vítimas do voo 447 estaria sobrecarregando atendimento rotineiro

Angela Lacerda, RECIFE, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 00h00

As irmãs Nadieje Maria Ferreira, de 38 anos, e Joseane Maria Ferreira, de 40, aguardaram um dia pela liberação, pelo Instituto Médico-Legal (IML), do corpo do seu irmão Romero Herculano da Silva. "A gente tem ?conhecimento? aí dentro", afirmou uma delas, justificando a rapidez na realização da necropsia. Romero morreu no Hospital Getúlio Vargas, às 11h30 de anteontem. Vinte e quatro horas depois, seu corpo seria velado e enterrado."Tivemos sorte. A previsão era que o corpo só saísse na quarta (hoje)", afirmou Nadieje. "Conversamos com pessoas que esperaram três dias. Os atrasos são por conta do avião (da Air France); o IML ficou superlotado", disse Joseane.A informação pode ser comprovada dentro do IML. A reportagem teve acesso ao local em que as vítimas de homicídio estão sendo atendidas, improvisado e precário. Três cadáveres estavam em macas para serem necropsiados. Mais de dez corpos espalhados pelo chão - sujo de sangue - já haviam passado pelo processo. Lavados, iriam para a "geladeira" - uma sala refrigerada que acomodava outros 40 corpos, de acordo com um funcionário contrariado com a diferença de tratamento dada às vítimas do voo 447."Antes do avião, esses corpos aqui no chão estariam pelo menos em gavetas, teriam um pouco mais de dignidade", disse, sem se identificar. Segundo ele, a situação já era difícil, com o IML recebendo entre 30 e 40 pessoas assassinadas nas segundas-feiras. "A situação piorou, não tem estrutura."Do lado de fora, a família do pintor de parede Antonio Rodrigues da Silva não sabia a quem recorrer. "Ele morreu às 5h30 do domingo e ainda está no necrotério do hospital, na pedra", disse ontem Alexsandra Tavares Rego, de 32 anos, parente de Antonio. "Falta fazer a remoção do corpo, mas o IML não manda um carro buscar." A Assessoria de Imprensa do hospital confirmou ter se comunicado com o IML, que enviou a polícia civil, mas não foi retirar o corpo.ESTRUTURANo ano passado, 4.457 pessoas foram assassinadas em Pernambuco. Dessas, 2.541 na região metropolitana do Recife. Nos quatro primeiros meses de 2009, foram 1.463 assassinatos - 804 na região metropolitana.O IML do Recife foi escolhido para a realização dos exames finais de identificação e necropsias das vítimas do voo 447 por decisão do governo federal. A estrutura de pessoal foi reforçada com legistas de outros Estados e peritos da Polícia Federal, além de dois observadores franceses. Segundo o governo estadual, existem ali todas as condições para o trabalho ser feito de "forma correta e acurada".Quanto ao atendimento à população local, a estrutura tem sido suficiente, na avaliação oficial. Para compensar a falta de espaço - repartido com os trabalhos referentes ao voo da Air France -, os exames de corpo de delito estão sendo realizados, provisoriamente, em uma casa da Vila Militar da PM estadual, no centro da capital. A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Defesa Social (SDS) reconhece ter havido atrasos na liberação de corpos no IML, no domingo, para adequação do local, mas diz que a dificuldade foi superada. FRASESNadieje e Joseane FerreiraParentes de vítima de homicídio"Tivemos sorte. A previsão era que o corpo só saísse na quarta (hoje). Conversamos com pessoas que esperaram três dias. Os atrasos são por conta do avião; o IML ficou superlotado"

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