Imóveis de mutirão têm ''contrato de gaveta''

Mesmo sem escrituras, moradores vendem unidades da CDHU

Mônica Cardoso, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

Durante um ano e meio, a auxiliar de enfermagem Maria Vilma de Lima Silveira, de 51 anos, ajudou a colocar bloco por bloco de cada parede dos 780 apartamentos de um conjunto da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) em Itaquera, zona leste de São Paulo. Nas folgas do plantão, ela ia para o mutirão onde carregava sacos de cimento e areia ou fazia argamassa."O mutirão era um trabalho de formiguinha. O bloco era passado de mão em mão por uma fila com mais de cem pessoas", diz. Em dezembro de 1999, os apartamentos ficaram prontos e, no mês seguinte, Maria Vilma, o marido e a filha se mudaram para um apartamento de 42 metros quadrados."Foi a maior alegria do mundo quando vi tudo em pé. É o meu apartamento. Foi construído embaixo de sol, chuva, frio", diz. "Eu me lembro até hoje quando o (ex-governador Mário) Covas me sorteou e disse para escolher o apartamento", diz ela, que sempre pagou aluguel. Ela já acertou 96 prestações mensais de R$ 100. Ainda faltam 204. No total, são 25 anos de financiamento. Há quatro anos, ela é síndica do Edifício C3, que abriga 40 apartamentos. Nenhum morador tem escritura do imóvel. Mesmo assim, ela conhece inúmeras pessoas que venderam o apartamento, com "contratos de gaveta". "O imóvel continua no nome do primeiro proprietário, o que é irregular. Pode acontecer do antigo dono tomar o apartamento. Ou do comprador não honrar as mensalidade e acumular dívida." Alguns imóveis são vendidos por até R$ 35 mil. "A negociação é na base da boa fé."

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