Implosão do Carandiru vira atração dominical

Nem praia nem cinema. O programa de domingo do comerciante Edson Ferreira é ver a implosão de três pavilhões da Casa de Detenção. Num fim de semana agitado como poucos em São Paulo - com show dos Doces Bárbaros neste sábado à tarde, no Parque do Ibirapuera; a final do Campeonato Brasileiro, no Estádio do Morumbi, neste domingo; e a perspectiva de sol e alguma chuva no litoral e no interior - Ferreira escolheu assistir a derrocada do Carandiru. "Quero ver caindo."Se quisesse, ele poderia dormir até mais tarde, no seu único dia de folga. Ou levar a mulher e o filho de 8 anos para passear. Mas não. Vai acordar cedinho (mora em Arthur Alvim), pegar o metrô e procurar um lugar que lhe ofereça uma boa visão da cena. "A Casa de Detenção é um ponto de destaque negativo em São Paulo."Ferreira trabalha em uma loja de embalagens de frente do prédio principal do presídio. Trabalhava apreensivo. "Agora, esta área vai se valorizar."De camarote, da janela de sua cozinha, no 10º andar de um prédio na Rua Ezequiel Freire, o aposentado Aníbal Rosa da Silva, de 78 anos, e sua mulher, Maria José, de 77, mais as duas filhas, terão uma vista privilegiada da queda da Detenção. "Até que enfim, chegou o dia!", comemora ele, que mora há 20 anos no bairro. "Não vejo a hora de ver tudo isso limpo, sem esse baixo astral."Para a dona de casa Virgínia de Jesus Fernandes Teixeira Padula, de 64 anos, programa melhor, impossível. Depois de assistir à missa do padre Marcelo pela TV, ela vai ver a implosão da janela de casa, no quinto andar de um prédio na Rua Alfredo Pujol.Na verdade, dá para ver só um pouquinho, por causa da verticalização do bairro. Mas o que se pode fazer, se tudo mudou tanto desde que ela nasceu, ali mesmo, no Carandiru. "Não tinha penitenciária, nem o trenzinho para a Cantareira, nada, só mato."Em 1907, Francisco e Tereza D?Elia, avós maternos de Virgínia, abriram a primeira padaria do bairro, perto da estação do trem. As terras deles eram separadas do Jardim São Paulo pelo Córrego Carandiru, que foi canalizado. "Uma vez tive de mudar de casa porque os ladrões entravam pelo telhado e por toda parte", conta Tereza, de 63 anos, irmã de Virgínia.Segundo elas, não basta implodir a Detenção. "Precisaria rezar missa, construir uma igreja, fazer alguma coisa para aliviar essas almas penadas. Como podem descansar em paz, pessoas que em vida se mataram, deceparam cabeças?"Até para a garotada do bairro, a implosão promete ser a "balada" da manhã deste domingo. Alessandro Palumbo, de 18 anos, vai se juntar à turma para ver o Carandiru ser detonado da cobertura de um prédio, na Rua Ezequiel Freire. "Vai ter até salgadinhos", conta. Para ele, sem a Detenção, o ambiente vai ficar mais leve. "Toda hora ameaça de fuga e rebelião, e polícia, camburão, helicóptero. Que inferno. Já teve até tiroteio na minha rua."Neste sábado, o estudante Rafael Flor, de 18 anos, vai aproveitar a ida ao Parque do Ibirapuera para jogar futebol. No fim da tarde, quer assistir ao show, com a namorada. "Vou mais pelo Caetano", diz. Bem nessa hora, Gabriel Machado Maretti, de 18, estará fazendo prova no vestibular da PUC. Gostaria de ver o show. "Menos pelo Caetano."Ele não se conforma de o cantor ter gravado Sozinho, de Peninha e muito menos de incluir "um tapinha não dói" no último trabalho. "Caetano perdeu o rumo. Não tem mais um projeto musical, só financeiro."A estudante Kelly Sabino, de 18, que "adora" Caetano, também não vai ao show. "Não dá para ver nada, tem gente demais". Por isso, ainda que faça um belo dia de sol, ela vai ao cinema, na sessão da tarde, ver o filme de Almodóvar, Fale com ela.Vanessa Barbosa, de 17 anos, decidiu viajar para Campos do Jordão. A professora de educação física Daniela Garcia, de 23 e a amiga Fernanda Gregório, de 22, irão a um churrasco, domingo. A primeira, que é são-paulina, torce pelo Santos. A outra é corintiana.

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