Imprecisões marcam confronto na TV

Dilma inflou reajustes do salário mínimo e Serra criticou redução de deficientes em classes especiais, que se deu por imposição constitucional

Lígia Formenti / BRASÍLIA, Marta Salomon / BRASÍLIA , Nicola Pamplona / RIO, Lucas de Abreu Maia/SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

Durante o debate de quinta-feira na TV Bandeirantes, tanto a candidata do PT, Dilma Rousseff, quanto o tucano José Serra cometeram deslizes e apresentaram dados imprecisos para sustentar suas teses. Dilma, por exemplo, inflou os índices do aumento do salário mínimo na era Lula. Serra criticou a redução de deficientes em classes especiais no atual governo - algo que ocorreu por imposição constitucional.

Ao responder a uma pergunta do candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, acerca das conquistas sociais do governo Lula, Dilma afirmou que o salário mínimo teve, nos últimos sete anos, "aumento de 74% acima da inflação". De acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), contudo, o acréscimo ficou 20 pontos porcentuais abaixo disso: 54%.

No governo Lula o mínimo subiu de R$ 200 em janeiro de 2003 para R$ 510 este ano. A inflação acumulada (INPC) no período foi de 66%. O INPC é usado pelo Dieese para calcular o aumento real do salário mínimo, pois reflete os preços das mercadorias para as famílias mais pobres.

Apaes

A queda de 87% para 39,5% das matrículas de pessoas com deficiências em escolas e classes especiais nos últimos dez anos foi apontada por Serra como suposta discriminação do governo Lula em relação às associações de pais e amigos dos excepcionais, as Apaes.

A redução, porém, foi acompanhada pelo crescimento das matrículas de alunos com deficiências em escolas regulares. A mudança teve ritmo mais acelerado nos últimos cinco anos, mas não é uma política do atual governo. Está prevista na Constituição de 1988 e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Também é prevista por convenção da ONU sobre a defesa dos direitos das pessoas com deficiência.

"A declaração do candidato Serra é apelativa e desinformada", reagiu o ministro da Educação, Fernando Haddad. De acordo com dados do MEC, os repasses do Orçamento para alunos com deficiência aumentaram nos oito anos de governo Lula, de R$ 47 milhões, em 2003, para R$ 219,9 milhões, neste ano.

"Estão reduzindo nossos alunos por uma questão ideológica", insistiu o deputado Eduardo Barbosa (PSDB-MG), presidente da Federação Nacional das Apaes. "O MEC faz a defesa da inclusão radical e, com isso, corta recursos para nossas estruturas: acredita que a escola comum daria conta, mas é mentira."

Mutirões

Outro tema de discussão entre Serra e Dilma foram os mutirões de saúde. O tucano defendeu sua retomada, enquanto a petista disse discordar dessa modalidade de atendimento, por não considerá-la uma "política estruturante".

O programa criado pelo governo para substituir mutirões de saúde, porém, não atingiu o objetivo esperado, segundo análise feita por integrantes do próprio Ministério da Saúde. Diagnóstico, datado de março deste ano, mostra que o programa não trouxe o aumento planejado de cirurgias, não melhorou acesso da população aos serviços nem trouxe redução das filas de espera.

Batizada de Política Nacional de Procedimentos Cirúrgicos Eletivos de Média Complexidade, a ação foi lançada em 2006 com a promessa de ser uma versão aprimorada e mais segura dos mutirões adotados por Serra quando ministro da Saúde. Em vez das quatro doenças contempladas no formato inicial - varizes, próstata, catarata e retinoplastia -, a política previa mutirões para 90 cirurgias. Era uma forma, como dizia o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, de "sair do populismo sanitário." Os números, no entanto, mostraram que mudança trouxe resultados bem aquém do esperado. No caso da catarata, em 2002, foram realizadas 309 mil cirurgias e, em 2005, 314,9 mil. No ano em que a nova política foi implantada, elas caíram para 175 mil.

IIndústria naval

O avanço da indústria naval será um dos trunfos da campanha de Dilma. O tema foi levantado pela petista em pergunta a Serra, no terceiro bloco do debate. O objetivo é criticar as importações de plataformas de petróleo pelo governo FHC.

"Não é possível voltar àquela política realizada no governo anterior em que se importavam plataformas e navios de Cingapura e da Coreia. As famílias coreanas e de Cingapura agradeciam. Agora, as famílias brasileiras é que não tinham emprego", disse Dilma, em suas considerações finais.

De fato, houve crescimento expressivo nas contratações da indústria naval brasileira na década: em 2000, com a maior parte dos estaleiros fechados, o setor empregava pouco mais de mil pessoas. Em 2009, fechou o ano com 46,5 mil trabalhadores. Serra disse apoiar a política de crescimento do setor, mas observou que o Brasil é ainda importador de peças para navios. "Se eu chegar lá, vou fazer uma política de aumento de produção dessas peças", afirmou. Reportagem do Estado mostrou que o índice final de nacionalização das plataformas é equivalente ao do governo Fernando Henrique, uma vez que não houve grande desenvolvimento tecnológico no setor.

"Um trabalhador não pode errar, uma mulher também não pode"

"Serei a presidenta que vai completar o Sistema Único de Saúde"

"O que me move não é um projeto pessoal, é a realização de sonhos de milhões de brasileiros"

Dilma Rousseff

"O Brasil vem avançando passo a passo. Sempre jogo pelo Brasil. Sempre procurei dar ideias"

"Saúde, educação e segurança são como três órgãos do corpo humano"

"Nós fizemos muitas conquistas, que não foram parte de apenas um Governo"

José Serra

"A proteção das árvores, a defesa do meio ambiente e o saneamento básico fazem parte de uma mesma equação"

"Eu sei como é ficar na fila como indigente, eu sei o que é um péssimo atendimento de

saúde"

"Essas eleições servirão para que sejamos capazes de assumir que ainda temos muito a fazer"

Marina Silva

"Se a gente quer viver numa democracia, temos de enfrentar com coragem a desigualdade"

"Saúde pra cá, saúde pra lá. Se não socializar a saúde, não tem solução para a saúde"

"Aqui (no debate) o bem deve ser feito e o mal deve ser evitado. Isso não quer dizer nada"

Plínio de Arruda Sampaio

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.