Imprensa argentina comenta as eleições no Brasil

"Brasil: ganhou Lula, mas haverá segundo turno". O título estampado no alto da capa do jornal Clarín, como principal manchete, reflete a importância do assunto no país vizinho. Todos os jornais publicaram, nesta manhã, relatos, opiniões e números sobre as eleições brasileiras. Classificada como "dramática eleição", o Clarín tratou de explicar como o favorito a ganhar a eleição em primeiro turno ficou para uma segunda rodada de votação."O presidente sentiu o impacto dos escândalos sucessivos em seu governo só na última parte da campanha: foi suficiente para desatar a sangria de alguns votos vitais, que alentou a uma oposição que parecia ferida de morte abaixo do timão de um candidato de carisma próximo ao de De la Rúa", compara Clarín referindo-se às semelhanças entre Geraldo Alckmin e o ex-presidente Fernando De la Rúa, considerado "entediante" por todos: analistas, eleitores; políticos, jornalistas e até por ele mesmo. De la Rúa não tinha nenhum carisma.Em suas quatro páginas dedicadas ao assunto, Clarín disse que "existem coisas sintomáticas nesse país: o candidato social-democrata fez sua diferença no maior distrito do país: São Paulo. Com um interior rico e uma mega metrópole, onde se misturam a opulência e a extrema pobreza, os paulistas deram sua preferência à Alckmin". A vitória de José Serra em São Paulo também foi destaque do Clarín, bem como "o voto parcimonioso e sem entusiasmo de Brasília, bem diferente daquele exibido há quatro anos".Com tom de decepção, o jornal ainda publica reportagem, na qual afirma que "o governo argentino esperava confiado numa vitória de Lula". Kirchner acompanhou a apuração do votos em sua casa em El Calafate, para onde viajou no fim de semana, contou Clarín. "Não há nenhuma dúvida sobre a conveniência de que Lula ganhe as eleições. Kirchner já o disse e esse é o clima em todo o governo", afirmou o subsecretário de Integração Econômica, Eduardo Sigal. Destaque também para a volta de Collor de Melo como senador.La Nación também estampa em sua capa a principal manchete dessa edição: "ganhou Lula, mas não conseguiu evitar o segundo turno". O jornal afirma que a partir desse resultado, "se desperta um suspense enorme sobre uma definição que, depois da recuperação da oposição, torna-se imprevisível". Em sua análise da notícia, o jornal afirma que "com um resultado ajustadíssimo, a eleição brasileira terminou ontem carregada de emoções fortes. A volatilidade em apenas um mês dos 12 pontos de vantagem que Lula tinha sobre a soma de seus adversários é um sinal para o governo de que não é infinita a tolerância dos brasileiros com os casos de corrupção que salpicam funcionários de confiança do presidente e dirigentes do PT".Em suas três páginas publicadas sobre o assunto, La Nación, ressalta que o resultado de ontem evidencia que o país está dividido entre ricos e pobres e reproduz frase do ministro Ciro Gomes: "O que está ocorrendo não é bom para o país. São os ricos contra os probres; o Nordeste contra o Sudeste. Isso é ruim para o Brasil". La Nación também elogia o sistema de voto eletrônico: "precisão e rapidez".Para o jornal Página 12, "tanto a oposição quanto o governo têm razões para sentir-se ganhadores com os resultados da eleição que dividiu o país". O jornal afirma que "a oposição larga a corrida ganhando - demonstrou que pode vencer o, até pouco tempo atrás, inoxidável Lula, e conta com força para levar adiante seu pedido de impeachment". Também compara o processo eleitoral no Brasil com o vivido no México recentemente. "A la mexicana, as eleições presidenciais do Brasil, que há três semanas eram de uma parcimônia norueguesa, com Luiz Inácio Lula da Silva encaminhando-se à uma previsível reeleição, acabaram em um lodaçal de acusações e operações turvas".O econômico El Cronista também destaca o resultado do primeiro turno e publica reportagem sobre a preferência dos industriais argentinos por Lula e que todos estão "em alerta" com a recuperação de Alckmin. "A aposta que Kirchner fez por Lula é a mesma que a maioria dos empresários argentinos fizeram , não por afinidade de discursos mas por simples cálculo econômico: tudo indica que o opositor Geraldo Alckmin, preferido dos homens de negócio de seu país, levaria adiante uma política comercial mais agressiva e menos concessiva no Mercosul.Cronista também observa que o segundo turno no Brasil é uma má notícia para começar a semana na Bolsa de Buenos Aires, onde se contava com a vitória de Lula no primeiro turno. O Ámbito Financiero inicia seu texto com "faltaram apenas poucos votos para ganhar no primeiro turno". A tentativa de compra de um dossiê, continuou, causou uma sangria de votos de Lula e o estrago poderia ter sido ainda maior, se não fosse pelo desastre aéreo, o qual dividiu a atenção dos meios de comunicação com as denúncias de corrupção. Infobae também deu destaque na capa, dizendo que não será tão fácil para Lula vencer um segundo turno e que o novo governo terá maior presença opositora.

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