Improviso dá o tom no desfile de São Paulo

Crise econômica atrapalhou o trabalho dos carnavalescos; compras antecipadas e pechinchas foram a alternativa

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

22 Fevereiro 2009 | 00h00

Brancas, volumosas e imponentes, as penas de faisão albino representam o luxo nos desfiles. Foram artigos raros no carnaval de São Paulo deste ano. Com a alta do dólar, cada pena, que custava R$ 95 no ano passado, triplicou de preço e chegou aos R$ 300. As penas falsas, sintéticas ou de tecido, nacionais, que custam R$ 0,80 cada e imitam penas de aves, foram a salvação. Só as rainhas de bateria ou os destaques, que chegam a investir R$ 30 mil na fantasia, puderam exibir sem dó os penachos pela passarela.   Confira mais informações sobre o Carnaval 2009No carnaval da crise e da desvalorização cambial, os produtos nacionais garantiram a festa paulistana, com valores de 30% a 50% mais baixos do que os importados. "Fazia tempo que a situação das escolas não era tão difícil. Sorte é que as empresas brasileiras deram conta de fornecer. Mas foi preciso criatividade para o desfile caber no orçamento", conta o carnavalesco Carlos Negri, da Unidos do Peruche.Com um enredo sobre pedras preciosas, a Peruche, que abriu o carnaval de sexta-feira, usou, em vez de pedras e bijuterias, materiais mais baratos, capazes de criar um bom efeito visual, como buchinhas de tomar banho e pregadores de roupa. De volta à elite do carnaval, a escola, contudo, não chegou a empolgar o sambódromo.A dificuldade financeira das escolas foi ainda pior porque o carnaval paulistano, apesar de competir em audiência com o do Rio, não é autossustentável. Segundo o presidente da Nenê de Vila Matilde, Alberto Alves da Silva Filho, o Betinho, pelo menos nove das 14 escolas do Grupo Especial acumularam dívidas neste ano que representam até 40% do orçado no ano passado. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) enviou projeto de lei à Câmara que isenta as escolas do ISS e perdoa a dívida acumulada de R$ 27 milhões por nunca terem pagado o tributo. De acordo com a Prefeitura, a cobrança de ISS das escolas era contraditória, uma vez que o Município financia os desfiles.Anualmente, as escolas recebem cerca de R$ 800 mil, entre verba da Prefeitura, televisão e bilheteria, e precisam buscar patrocínio, dinheiro que permite bancar desfiles que custam em média R$ 2 milhões. É pouco, se comparado ao Rio, onde a Beija-Flor investiu R$ 13 milhões no carnaval campeão do ano passado. Mas o patrocínio nem sempre vem, aumentando o rombo. "Como já devíamos desde o carnaval anterior, neste ano ficou difícil comprar a crédito", diz Betinho. Última a desfilar no sábado, apesar das dificuldades, a Nenê levantou o público quando já amanhecia com um bom samba-enredo.A Pérola Negra, segunda a entrar na avenida na segunda noite de desfiles, também quase se complicou por causa da desistência de um patrocinador. Com enredo que faz referência à Índia, esperavam receber dinheiro de uma empresa de cosméticos indiana. Ficaram na mão, mas acabaram obtendo patrocínio de uma empresa de remédios, que os ajudou a terminar o carnaval.Longe de esbanjar, fizeram um desfile estimado em R$ 1,8 milhão. O tema ajudou a economizar. A escola não usou nenhuma pluma de ave para manter a coerência com o país homenageado, onde o respeito aos animais é sagrado. Reutilizaram também materiais do ano passado e garrafas pet para dar volume às fantasias, garantindo um desfile barato e com conceito. "Foi um carnaval ecologicamente correto", diz o diretor de Marketing da escola, Jairo Roizen.A Tom Maior, um dos melhores desfiles da madrugada de sábado, também tirou proveito do tema, Angola. Diversas alas usavam palhas como material principal da fantasia e carros alegóricos. O vime e a palha ainda foram muito usados pela Mancha Verde, outra que fez sucesso na avenida no sábado ao homenagear Pernambuco. Já o carnavalesco Jorge Freitas, da Rosas de Ouro, abusou dos figurinos teatrais, com fantasias em cores vibrantes que, apesar do pouco luxo, tinham simbolismo de sobra. "Foi a pior crise dos últimos tempos", reclamou. Na passarela, contudo, a escola da Freguesia do Ó empolgou, levando boa parte da plateia a cantar o samba-enredo sobre fábrica dos sonhos.A gravidade da crise foi menor para as escolas que organizaram os desfiles com antecedência. Caso da Mocidade Alegre, que começou a comprar o material para fazer os desfiles em maio, quando o câmbio ainda não havia estourado. Difícil, porém, foi finalizar fantasias e carros alegóricos. "Em São Paulo, os jurados consideram cada vez mais a originalidade do que a exuberância, mais criatividade do que luxo. Aprendemos a explorar esse critério", diz o carnavalesco da Mocidade, Flávio Campeno, que adornou o desfile com canudos de refrigerante. Mas antecipar as compras foi uma tarefa que poucas conseguiram realizar, porque as primeiras parcelas da verba da Prefeitura começaram a pingar só em agosto. A alternativa de encontrar bons fornecedores acabou sendo um diferencial. A Mancha Verde, que surpreendeu no sábado como uma das favoritas ao título, comprou espelhinhos que sobraram nos estoques de uma empresa de cosméticos nacional. O tema Pernambuco também contribuiu. "Viemos com um carro feito de palha e vime por artesãos do Rio, o que saiu bem em conta", diz o presidente, Paulo Serdan. A Mancha ainda aguarda receber a verba de R$ 200 mil do governo pernambucano. "Estamos preenchendo formulários de prestação de contas. Espero que venha", diz.

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