Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

INB diz que informou prefeitura 'por telefone' sobre urânio

Empresa realizou duas inspeções, mas os resultados das coletas só foram enviados oficialmente a Lagoa Real sete meses depois

André Borges, O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2015 | 09h34

BRASÍLIA - A estatal federal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) declarou nesta segunda-feira, 24, que, por meio de um telefonema, informou à prefeitura do município que havia encontrado água contaminada com alto teor de urânio na zona rural de Lagoa Real, na Bahia. A empresa não informou em que data a ligação teria ocorrido, mas afirmou que o aviso sobre o "resultado preliminar" de sua perícia foi repassado por telefone ao secretário de Infraestrutura de Lagoa Real, Rosalvo Alves de Oliveira.

A empresa realizou duas inspeções no sítio de Osvaldo Antonio de Jesus. A primeira checagem foi feita em outubro de 2014, e a segunda, em março de 2015. Os resultados dessas coletas, no entanto, só foram enviados oficialmente à prefeitura de Lagoa Real no dia 22 de maio de maio, sete meses depois. Até essa data, segundo o secretário de meio ambiente de Lagoa Real, Willike Fernandes Moreira, a prefeitura sequer tinha conhecimento de que o poço existia. "A prefeitura não sabia de nada, não sabia nem que tinham aberto o poço", disse.

Na última quinta-feira, a reportagem questionou a INB sobre as causas da demora da empresa em informar às autoridades competentes que de que havia encontrado água contaminada. A empresa não se posicionou sobre o assunto. 

Na tarde desta segunda, a INB informou que fez uma ligação telefônica para a prefeitura e que este telefonema teria ocorrido entre as duas análises de água realizadas pela empresa. A reportagem procurou o secretário de Infraestrutura de Lagoa Real, Rosalvo Alves de Oliveira, mas não obteve retorno até a manhã desta terça.

Por meio de nota, a INB afirmou que, depois da primeira coleta de água, feita no fim do período de seca, "aguardou o término do período chuvoso para realizar a segunda coleta de águas para análise, que ocorreu em março de 2015, como uma maneira de verificar a influência da sazonalidade nos resultados". 

"Mesmo antes de fazer a segunda coleta de água para confirmar o resultado, a INB informou pessoalmente ao Sr. Osvaldo e, por telefone, ao secretário de Infraestrutura de Lagoa Real, Rosalvo Alves de Oliveira, o resultado preliminar", declarou. 

Segundo a INB, após a obtenção do resultado da segunda coleta, "este foi imediatamente informado", sendo o boletim de análise entregue formalmente em maio de 2015. "Na ocasião, por não fazer parte do Programa de Monitoração Ambiental, os resultados da análise não foram comunicados ao Ibama."

Neste ano, conforme informado pelo Estado, a INB publicou comunicado oficial garantindo que, em todas as inspeções de água realizadas ao longo de 2014, não encontrou nenhuma situação em que a quantidade de urânio na água estivesse acima do limite estabelecido como seguro pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para o consumo humano.

As duas análises do poço, segundo a empresa, foram feitas a pedido do dono do reservatório, Osvaldo Antonio de Jesus, como parte de ações de um programa para "manter um bom relacionamento e proximidade com a população local". A empresa declarou ainda que a fiscalização rotineira da água realizada na comunidade de Varginha refere-se a uma vila localizada no município de Caetité, e não a uma vila homônima de Lagoa Real, local onde está o poço contaminado.

Depois de afirmar que o poço contaminado havia sido aberto pelo próprio dono, Antonio de Jesus, a INB declarou nesta segunda que, na realidade, o reservatório foi aberto pela Companhia de Engenharia Hídrica e de Saneamento da Bahia (Cerb), conforme já havia sido informado pela reportagem no sábado.

Para atestar que a mineração do urânio feita pela estatal no município vizinho de Caetité não teria nenhuma influência sobre a contaminação, a INB alegou que a comunidade onde está poço contaminado está localizada numa sub-bacia hidrográfica (Sub-Bacia do Rio São Pedro) diferente daquela onde se situa a unidade da empresa (a Sub-Bacia do Riacho das Vacas). "Por este motivo, o poço do Sr. Osvaldo não está sujeito à influência de suas atividades e não está contemplado no Programa de Monitoração Ambiental da INB, aprovado e fiscalizado pelo Ibama e pela Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear)."

Com 90 metros de profundidade, o poço contaminado foi aberto em fevereiro de 2013. Diversos sítios vizinhos, com poços exatamente iguais, vinham sendo utilizados diariamente pela população, sem nenhum tipo de inspeção ou alerta, mesmo após a INB entregar os resultados do reservatório contaminado, em maio.

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