Incêndio em favela de SP desabriga 300

O incêndio na favela de Paraisópolis, na noite de sábado, deixou cerca de 300 pessoas desabrigadas, 39 casas completamente destruídas e outras 40 interditadas por estarem em local de risco. A maioria dos moradores afetados está na casa de parentes ou vizinhos. O levantamento foi anunciado no final da tarde deste domingo pela associação que representa os moradores da favela.Aqueles que não puderam se abrigar com vizinhos ou parentes serão removidos para outras áreas ou poderão receber ajuda para alugar outro barraco na própria favela. A secretária Municipal de Assistência Social, Aldaíza Sposati, esteve no local à tarde e informou que será criada uma frente de trabalho com os desempregados da região para a limpeza do local. Antes disso, um laudo sobre as condições de segurança e um estudo geotécnico para avaliar as condições de moradia serão feitos.Depois de limpa, a área deverá passar por um processo de urbanização. Segundo o secretário municipal de Habitação, Paulo Teixeira, o projeto já estava em andamento antes do incêndio e deve ser concluído até o final deste ano. O objetivo é não permitir que novos moradores se instalem na área, onde o solo é praticamente um lodo. "Paraisópolis será a primeira a ser atendida pelo projeto Bairro Legal", afirmou.De acordo com Teixeira, até junho deste ano a prefeitura abrirá concurso público para as empresas que trabalharão na urbanização da área. O secretário quer transformar o grotão numa área com praças e ruas.Apesar do esforço de representantes do poder municipal, inclusive da prefeita Marta Suplicy, que esteve na favela no sábado, o episódio evidencia os problemas existentes numa região extremamente pobre da zona sul. Pouco depois das 20h30 de sábado, a poucos quilômetros das mansões do bairro Morumbi, uma discussão que poderia ocorrer em qualquer casa teve consequências trágicas para toda comunidade de Paraisópolis.Antonio Luis dos Santos, morador de um barraco na área denominada grotão, decidiu expulsar a mulher de casa depois de uma discussão. Com a recusa dela, Santos, que estava embriagado, ateou fogo num dos colchões da pequena casa. Foi o estopim de um incêndio de grandes proporções, com labaredas que chegavam a 20 metros de altura, segundo relato dos moradores vizinhos.O grotão fica numa depressão entre os morros da favela de Paraisópolis e não tem ruas de acesso para carros. Apenas pequenas vielas de terra entre os barracos servem de passagem para os pedestres.As técnicas utilizadas pelos bombeiros surpreenderam os moradores, que elogiaram a ação. "Para mim eles foram verdadeiros guerreiros", afirmou o segurança Clóvis Cabral Foram usadas mangueiras de até 150 metros de comprimento, lançadas sobre os telhados das casas da parte de cima do morro para chegarem até a área das chamas, que foram controladas em menos de três horas.Entre os que perderam tudo está o auxiliar de limpeza Edivaldo Alexandre e a família de cinco filhos, que chegou de Alagoas no final de 2000. Durante o ano passado, ele economizou dinheiro para comprar um barraco por R$ 2,5 mil . Retornou aos escombros da casa somente para tentar encontrar a chave do armário que possui na firma em que trabalha. "Não tenho onde ficar, já que a casa do meu cunhado também foi interditada por estar em área de risco", disse emocionado.Qualquer pessoa que passasse nas ruas de Paraisópolis na tarde de hoje ficaria impressionada com a mobilização da comunidade para ajudar as famílias vitimadas pelo incêndio de sábado. Na sede da União dos Moradores de Paraisópolis, José da Silva, mais conhecido como Zé Rolim, presidente da associação, organizava o trabalho de pouco mais de 30 pessoas.Em poucas horas, duas salas da associação ficaram cheias de roupas e utensílios domésticos. Na ampla sala, cerca de 1,5 tonelada de alimentos doada por pessoas de toda a região. No final da tarde, as doações estavam sendo enviadas para a escola que fica ao lado da associação, já que não cabia mais nada dentro da casa. "A expectativa é de que segunda e terça as doações se intensifiquem, já que as domésticas pedem ajuda para suas patroas", disse Rolim.Ele também decidiu instalar uma cozinha comunitária na escola, onde serão servidos almoço e jantar para os que forem cadastrados pela prefeitura até que seja dada uma solução definitiva para os desabrigados.A favela Paraisópolis é a segunda maior de São Paulo, atrás apenas da Heliópolis e abriga cerca de 65 mil habitantes. Várias entidades fazem projetos assistenciais na região. O hospital Albert Einstein, por exemplo, controla uma equipe de 70 membros que fazem assistência médica domiciliar aos moradores. O colégio Santo Américo mantém uma creche no local, onde ajuda 700 crianças, enquanto a Porto Seguro financia uma escola de ensino fundamental que auxilia outras 700 pessoas.As maiores críticas dos moradores em relação ao episódio foram para a ação da Polícia Militar, considerada negligente.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.