Tasso Marcelo/AE
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Incêndio no Rio destrói obra-prima de Di Cavalcanti

Fogo em cobertura também queimou tela de Guignard; marchand lamenta mais morte de gata e promete se vingar com exposição

Felipe Werneck e Roberta Pennafort - O Estado de S. Paulo,

14 Agosto 2012 | 09h57

Texto atualizado às 22h22.

RIO DE JANEIRO - No dia seguinte ao incêndio em sua cobertura dúplex que destruiu obras-primas como Samba (1925), de Di Cavalcanti, e Floresta Tropical (1938), de Guignard, o marchand e colecionador Jean Boghici lamentou a morte de sua gata Pretinha na tragédia. Ele também disse que prepara uma "vingança contra o destino", com uma exposição de peças de sua coleção.

Ainda abalado, Boghici concedeu entrevista na calçada da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, ao deixar o Edifício Príncipe de Nassau no início da tarde, acompanhado da mulher, Geneviève, e de um grupo de amigos. "Não quero saber de quadro. Meu gato morreu. Isso é o que me dói", disse ele, que tem 84 anos, é romeno e mora no Rio desde 1949. "Estou muito traumatizado por causa da perda da Pretinha, que dormia a meu lado." Para ele, o sentimento em relação ao incêndio da noite anterior era de "raiva e vingança". "Vou me vingar desse destino cruel, fazer uma bela exposição no Museu de Arte do Rio (MAR) e acabou-se."

Apesar do incêndio, está confirmada para 15 de novembro a abertura da exposição O Colecionador, com obras reunidas por Boghici ao longo de cinco décadas, na abertura do novo museu na região portuária da cidade. No apartamento, havia cerca de uma centena de obras, todas seguradas.

Além das duas obras-primas queimadas, gravuras de Debret também foram perdidas, disse o subsecretário de Patrimônio Cultural do Rio, Washington Fajardo, que acompanhou Boghici na saída do prédio. Segundo ele, o incêndio danificou um trabalho de Antonio Dias e uma pintura de Lygia Clark que ficava no quarto do marchand. "Neste e em outros casos, acreditamos que vai ser possível recuperar."

Fajardo disse que foi uma surpresa o mobiliário, assinado pelo português Joaquim Tenreiro, ter ficado intacto. Esculturas de Victor Brecheret e Maria Martins também se salvaram. O móbile de Alexander Calder que ficava preso no teto da sala caiu no chão, mas não sofreu dano.

"Muita coisa foi salva: três Tarsilas do Amaral (O Sono, Sol Poente e Pont Neuf), Lygia Clark, Antonio Dias, Maria Martins e vários outros, mas infelizmente Samba foi para o beleléu e um Guignard foi embora, mas outro ficou", disse o colecionador, lembrando que sua galeria e sua casa em Itaipava, na região serrana do Rio, estão cheias de obras.

Geneviève disse que Samba praticamente "não existe" mais. "Sofreu bastante. Floresta Tropical também. São as duas perdas essenciais."

Boghici lembrou que não foi a primeira vez que teve obras destruídas pelo fogo, citando o incêndio no Museu de Arte Moderna (MAM), em 1978. "Perdi vários quadros na década de 1970 e fiquei doente. Depois, fiz uma bela exposição em São Paulo. Agora, vamos fazer no MAR. Muita coisa se salvou, outra se machucou, outra queimou. Foi uma fatalidade", disse Boghici.

O advogado Paulo Henrique Pedras, amigo que esteve ao lado de Boghici durante o trabalho dos bombeiros, contou que, apesar do nervosismo, ele se mostrou conformado. "Ele estava nervoso, mas é uma pessoa experiente. Passou por muita coisa nessa vida, então ficou conformado, porque, afinal, não teve perda de vidas."

Investigação. O laudo da perícia feita no apartamento deverá ficar pronto em 15 dias. A filha do colecionador prestou depoimento e contou que viu o fogo começar no ar-condicionado de um dos quartos, levantando a hipótese de curto-circuito.

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