Índices de criminalidade do Rio são maquiados, diz juíza

A juíza aposentada e deputada federal Denise Frossard (PSDB) afirmou nesta sexta-feira que os índices de criminalidade divulgados pelos governos não são confiáveis. "Muitas vezes, esses dados vêm maquiados. Para não mostrar a realidade, a polícia troca ?homicídio? por ?encontro de cadáver?, mas um corpo encontrado cheio de marca de bala é o quê?", declarou Denise, durante seminário sobre segurança pública realizado no auditório do jornal O Globo. Na palestra, ela contou um caso particular para exemplificar o que chamou de despreparo da polícia. "Eu já tive minha bicicleta furtada oito vezes e, quando fui à delegacia registrar um dos casos, ouvi do policial: ?Será que não dá para registrar como outra coisa? Não tem esse código no meu computador.?" Segundo ela, isso faz com que o cidadão perca a credibilidade na polícia e a "fé no Estado". O secretário de Segurança Pública, Anthony Garotinho, que participara da abertura do evento e não assistiu à palestra da deputada, não quis comentar o assunto depois para "não polemizar", segundo informou sua assessoria de imprensa. Segundo Denise, é possível adotar no País um programa de tolerância zero contra a criminalidade, semelhante ao que foi criado em Nova York, mas as ações teriam que começar "por cima." "Nos EUA, o problema é com o terrorismo e as gangues. Aqui no Brasil, o principal problema é a corrupção", disse ela. "Mesmo quando as janelas de cima do prédio do Estado se quebram, os andares de baixo são os mais afetados. Aí, o que vemos é a violência na rua, a sensação de criminalidade. O crime só não compensa para o ladrão pé-de-chinelo." Seminário O seminário "Tolerância Zero: O fim da violência e da criminalidade urbana", foi organizado pelo jornal, em parceria com o Consulado-Geral dos Estados Unidos no Rio e o Ministério Público Estadual. O cônsul-geral dos EUA no Rio, Mark Boulware, se mostrou preocupado com a violência e disse a situação tem que mudar. "Moro e trabalho no Rio e me preocupo. Fico triste em ver uma cidade tão linda ser degradada pela violência", disse ele. "Pode ser de forma horrenda, como aconteceu com o jornalista Tim Lopes, ou de forma branda, mas que nos fez mudar de hábitos, como não sair mais à noite sozinho." Garotinho, que acabara de discursar, estava na mesma mesa do cônsul e teve que ouvir o desabafo de Boulware. "Nós achamos que a Segurança Pública tem que trabalhar com prevenção, repressão, modernização e recuperação (neste caso, do usuário de drogas)", disse, depois, o secretário, sem comentar as declarações do cônsul-geral. Garotinho afirmou que é possível implantar um programa de tolerância zero no Rio como existe em Nova York desde que as diferenças entre as cidade sejam levadas em conta. "A realidade do Rio é diferente, tanto econômica, como socialmente. Nova York tem algumas áreas de exclusão. Nós temos muitas." Usuários O coordenador de Justiça Terapêutica do Ministério Público, Márcio Mothé, que também participou do seminário, disse que a Secretaria de Administração Penitenciária, em parceria com o Ministério Público, pretende inaugurar nos próximos meses um Centro de Atendimento de Justiça Terapêutica, o primeiro no País. "O objetivo é substituir a pena de seia a 18 meses de reclusão do consumidor de drogas e colocá-lo em tratamento médico. Ou ele vai ser preso ou vai se tratar. Não tem saída."

Agencia Estado,

06 Junho 2003 | 19h37

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