Camila Ignacio Geraldo/ACNUR
Camila Ignacio Geraldo/ACNUR

Indígenas da Venezuela criam vida nova no Brasil

Tuxaua ajuda refugiados e conta como é a vida das famílias em Sakau Motá, comunidade na fronteira entre Brasil e Venezuela

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2022 | 05h00

Anita Yanez é uma tuxaua, liderança política que representa a sabedoria da etnia Pemón-Taurepang na comunidade Sakau Motá. Na Língua Portuguesa, a palavra é o equivalente a cacique. E esta brasileira, que completou 47 anos no dia 8, foi a primeira mulher que venceu democraticamente as eleições para ser uma liderança nas comunidades na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. “Um tio era o tuxaua, mas aí o pessoal decidiu trocar. Na votação, uma pessoa teve 53 votos, o vice dele teve 20 e eu recebi 73. Eu não queria ser, não sabia o que tinha de fazer, mas estou aprendendo. Nunca tive a chance de estudar, mas agora sou tuxaua.” 

Anita assumiu a tarefa em um momento importante de sua comunidade, ao liderar o acolhimento de refugiados e imigrantes da Venezuela. Ela vive em Sakau Motá, comunidade que, há três anos, era a casa de cerca de 200 pessoas. A realidade mudou completamente com a chegada de novas pessoas. “Nossa comunidade era muito pequena, com 37 famílias. Mas aí recebemos os imigrantes e estamos em 386 pessoas agora”, diz.

Famílias

Quando Anita fala do tamanho da comunidade, ela não se refere apenas à quantidade de famílias, mas à estrutura. Além das casas, o local tinha apenas uma igreja. Depois, com a chegada de mais pessoas, eles construíram uma cozinha coletiva, uma escolinha, e gostariam de mais recursos para poder ampliar. “Não quero que meus netos cresçam como eu, que nunca estudei. Tem de aprender para poder cuidar do nosso povo”, afirma.

Com a chegada dos imigrantes e refugiados venezuelanos, os filhos brasileiros começaram a se casar e a comunidade foi crescendo. “Abrimos nossas portas e nossos corações quando fomos procurados por eles. Temos muitos projetos em comum”, explica Anita, que também sonha em ter um posto de saúde na comunidade. Para isso, conta com o conhecimento de Yobert Tovar, médico venezuelano que se refugiou no Brasil para fugir da crise econômica e da violência na fronteira. Ele é mestiço e mulher e filhos são Taurepang. 

“Estou vivendo aqui na comunidade há três anos e fomos muito bem recebidos. Sou muito grato a Anita”, conta. Tovar e a mulher atuavam como médicos na Venezuela havia 15 anos. Estudaram em Cuba e têm formação em clínica geral. “Com a crise econômica na Venezuela, já não conseguia sustentar meus filhos e os estudos. Fomos obrigados a vir para o Brasil buscar ajuda. Houve um massacre na fronteira, tinha terror e medo, saímos correndo para cá”, revela.

Fuga

Chegaram com quase nada, apenas seu conhecimento, e vivem em habitações improvisadas de lona. Por ser estrangeiro, Tovar não tem permissão para receitar no Brasil. Também não tem recursos para apresentar as documentações necessárias. “Ele é médico, mas trabalha com a gente na roça”, conta Anita, que teve apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no apoio a pessoas sem documentos que necessitavam da solicitação de refúgio no Brasil.

Tovar está estabelecido no Brasil como refugiado e diz que ajuda como pode sua comunidade. Mas sonha poder exercer a medicina por aqui. “Minha vida mudou radicalmente. Eu queria trabalhar como médico, mas não posso. Estou rezando para ver se consigo essa oportunidade, pois muitas comunidades não têm médicos por aqui. Eu não acredito que a Venezuela vá melhorar em pouco tempo.”

Em comum, ele e Anita sonham com uma vida digna e o respeito à cultura tradicional. “Estamos vivendo juntos. É bom porque a comunidade cresceu, mas o lado ruim é que não temos como manter todos eles. Infelizmente não temos como receber mais pessoas agora”, diz a cacique. Eles vivem da agricultura, plantando banana, mandioca e cana. Se precisam fazer compras em Pacaraima, são mais de três horas de caminhada.

“Quero aproveitar o meu mandato e dar o melhor para o meu povo. Meu sonho é que a escola cresça um pouco e entrem mais professores. O posto de saúde também. A gente mesmo iria manter e trabalhar nisso, sem ter de sair daqui para conseguir as coisas”, diz Anita.

Desde 2014, a ACNUR acompanha a chegada de indígenas refugiados e migrantes vindos da Venezuela. Já são mais de 7,5 mil registrados, principalmente da etnia Warao (70%) e Pemón-Taurepang (24%). Em Pacaraima, cerca de 1.240 pessoas vivem em quatro comunidades indígenas de acolhida na Terra Indígena São Marcos.

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