Individualismo e mobilização na metrópole

Grandes metrópoles, principalmente as que apresentam profundas desigualdades sociais, constituem-se também como o locus propício para o desenvolvimento de comportamentos individualistas. São vários os fatores que interagem para engendrar o individualismo, entretanto, vamos nos ater àqueles que consideramos os mais significativos quando pensamos em nossas grandes cidades.Antes de mais nada, precisamos lembrar que os valores do individualismo ganharam enorme impulso com a hegemonia liberal que se estabeleceu nas últimas duas décadas. A série de desregulamentações nas relações entre capital e trabalho, o desemprego estrutural provocado pelas reengenharias e pelas novas tecnologias, os novos métodos de organização do trabalho baseados em ganhos de produtividade e no acirramento da competição entre empresas e entre funcionários, o recrudescimento da concorrência globalizada, o esvaziamento dos sindicatos, entre outros, impuseram o ?salve-se quem puder? para a maior parte das populações dos grandes centros urbanos, onde tais mudanças foram muito mais acentuadas. A sensação de só poder contar consigo mesmo, num mundo hostil onde o outro é quase sempre um concorrente, foi sendo generalizada no cotidiano da luta pela sobrevivência. Com isso, o individualismo é, hoje, um componente estruturante das relações sociais, ainda que não absoluto, dado que outros valores e alternativas socioeconômicas ainda resistem e colaboram para que o quadro não se configure de forma ainda mais dramática.Há ainda a enorme possibilidade de consumo existente nas grandes cidades, geradoras incessantes de desejos, onde a publicidade socializa o imaginário urbano mas a realidade reserva a poucos o amplo acesso ao consumo. Esta contradição vem se desdobrando em conseqüências funestas para todos - inclusive para aqueles que desfrutam de todas as possibilidades de conforto, luxo e mesmo desperdício - pois as desigualdades sociais engendram frustração atrás de frustração diante de tantos desejos não realizados e de tantas propagandas que criam ilusões inacessíveis para muitos. Isso gera revolta e criminalidade entre parcelas dos excluídos e o aprisionamento das elites em carros e condomínios blindados. E também acentua o hedonismo tecnológico e auto-alienante da busca da satisfação em objetos sofisticados e grifes famosas, gerando outra forma do ?salve-se quem puder? na corrida pelo acesso aos ícones da moda, trancafiando-se cada qual em seu mundo privado e eivado de medo, contribuindo para o esfacelamento do tecido social e para o recrudescimento da onipotência do indivíduo narcisista e "vencedor". Em sociedades com tais características, como a nossa, não existem vencedores. Todos estamos perdendo. E perdemos inclusive a oportunidade de começarmos a enxergar o óbvio, pois é mais do que evidente que estamos vivendo em sociedades doentes. Não é possível combater a doença sem um diagnóstico preciso e corajoso.Trata-se de iniciar por aquilo que é mais simples, ou seja, retomar um conceito bastante antigo e que nunca deveria ter caído em desuso: o homem é um ser social, vive basicamente em sociedade, não pode prescindir do outro nem para se alimentar. Vivemos em regime de divisão de trabalho e somos essencialmente dependentes do processo de produção e reprodução coletivos da vida. Ainda que cada qual com sua individualidade, seu talento, sua vocação - o que é muito diferente da onipotência individualista. Em segundo lugar, é fundamental resgatarmos o fundamento republicano de nossas sociedades, em que a coisa pública diz respeito a todos, deve estar a serviço de todos e, se o desejo de todos é viver da melhor maneira possível, nossas sociedades altamente sofisticadas, produtivas e conscientes podem e têm a obrigação de realizar o bem-estar social fundamental para a plena satisfação de todos. Nosso País e nossas cidades ainda não realizaram as tarefas básicas da vida em sociedade, da cultura cidadã e do pleno significado do regime republicano. As novas mobilizações que estamos empenhados em construir colocam-se nesta perspectiva: da sociedade civil organizada, quem sabe, poderá surgir uma sociedade justa e sustentável, talvez a única que poderá encarar de frente o próprio presente e que seja capaz de legar um futuro para as próximas gerações. *Mauricio Broinizi Pereira e Oded Grajew são membros do Movimento Nossa São Paulo: Outra Cidade

Mauricio B. Pereira e Oded Grajew *, O Estadao de S.Paulo

30 Novembro 2007 | 00h00

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