Indústria do recurso é suspeita de comprar cadastro de multados

Os 150 mil motoristas flagradosdesde maio de 1999 circulando em ruas e estradas do Estado deSão Paulo em velocidade 20% superior à permitida estão recebendocartas de empresas que se propõem a apresentar recursos àsmultas, por preços que variam de R$ 300,00 a R$ 350,00. Acorrespondência chega dias depois de notificações nas quais oDepartamento Estadual de Trânsito (Detran) convida os infratoresa apresentarem defesa, sob pena de suspensão da habilitação. Amaneira pela qual as empresas obtêm os endereços despertasuspeitas de especialistas em legislação de trânsito emotoristas, que criticam o uso de dados confidenciais para finscomerciais.Em alguns casos, segundo o diretor de Habilitação doDetran, Antonio Carlos Bueno Torres, as cartas das empresas e anotificação chegam juntas. "Se essas informações estiveremsendo passadas por alguém do próprio Detran, fica configuradairregularidade grave, passível de investigação pela corregedoriado departamento", afirmou o presidente do conselho do Institutopara Desenvolvimento do Trânsito e Transportes (ITTD) eex-secretário municipal de Transportes, Getúlio Hanashiro.Torres garantiu que não há possibilidade de funcionáriosdo Detran fornecerem as informações. "Todo o sistema émanipulado pela Prodesp", afirmou, referindo-se à empresaProcessamento de Dados do Estado de São Paulo.Sindicância - O Detran instaurou sindicância interna einquérito policial, ainda em curso, para apurar como ocorreu oacesso aos dados dos motoristas. No mês passado, foram ouvidosrepresentantes das empresas Connex, Rodrigues Alves e Procar.Eles alegaram ter obtido os endereços na lista telefônica, apartir da publicação dos nomes dos motoristas no Diário Oficialdo Estado e de firmas de mala direta.O argumento da lista fica difícil de se sustentar nocaso de infratores com nomes comuns, como Gonçalo Silva eAntônio Silva. Uma pesquisa no site da Telefônica, por exemplo,revela um total de 130 pessoas com esses nomes.Para o presidente da Associação dos Proprietários deVeículos Automotores de São Paulo (Aprovesp), Jair Leal, ahistória está mal explicada. "Alguém do Detran pode estarganhando dinheiro vendendo cadastros de motoristas. Esses dadossão confidenciais e só dizem respeito às partes envolvidas."O motorista Antonio Romeu Amaral afirmou ter recebidocartas de quatro empresas oferecendo serviços de recurso umasemana depois da chegada da correspondência oficial do Detran."Nunca havia recebido mala direta dessas empresas e não tenho amenor idéia de como conseguiram meu endereço."O taxista Gonçalo da Silva, o microempresário AntônioSilva e o empresário Luiz Augusto Miranda Rosa também receberamcartas. Rosa comparou a situação à que viveu há pouco mais de umano, quando teve o carro roubado. "Horas depois de eu ter feitoo boletim de ocorrência, ligou uma empresa oferecendo serviçosde recuperação do veículo. Como eles podiam ter o meu telefonetão rápido?"

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