Inês, cinco filhos, todos assassinados: ''''A gente tem que se conformar, ficar calada''''

No violento bairro do Coque, no Recife, mães como ela vivem a mesma sina: mata-se por qualquer motivo

Angela Lacerda, RECIFE, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Os olhos de Inês Maria da Silva, de 67 anos, foram perdendo o brilho à medida em que ela foi perdendo os filhos. Os cinco. Todos homens. Todos assassinados. Todos residentes no Coque - onde Inês mora desde a década de 40 -, bairro com cerca de 40 mil habitantes na área central do Recife, estigmatizado pela violência.O primeiro, ela enterrou há 20 anos. José André Adolfo da Silva, o caçula, então com 15 anos, mas já pai, foi comprar cigarro numa barraca perto de casa. Um homem disse "Olha ele ali" e disparou. "Morreu no lugar de outro, o matador disse depois que se confundiu." O segundo foi há 15 anos. Fábio Adolfo da Silva tinha 23 e era pagodeiro dos bons. Só queria saber de música. Todo mundo sabia quem ele era no Coque. Uma noite, um homem da vizinhança pediu-lhe comida, disse que já tinha batido em outras casas sem êxito. Fábio deu.Mais tarde, o rapaz foi se apresentar com seu grupo. Quando voltou, à 1 hora da manhã, levou três tiros do homem a quem ajudou. O assassino acompanhou a movimentação da polícia, ficou olhando para o corpo inerte de Fábio. Somente dois anos depois se soube que ele foi o autor do crime. Preso por assalto, confessou ter matado "o pagodeiro". Por inveja. O terceiro foi Rivaldo Adolfo da Silva. Faz quatro anos. Rivaldo, de 36, era casado com Risoneide e tinha três filhos. Trabalhava num depósito de papel. Gente conhecida da sogra de Rivaldo estava matando um rapaz na frente da casa dele. Eram uns quatro homens. Ele saiu e disse que não queria aquilo na sua porta. Os homens obedeceram, mas avisaram que ele também seria morto. Risoneide não foi ao enterro e Inês não viu mais os netos. "Soube que ela (Risoneide) achou bom ele ter morrido para ficar com a casa." O quarto a morrer foi Jerry Adriani Adolfo da Silva, em junho de 2006. Tinha 19 anos e era capoeirista. Um dia, discutiu com um colega da roda de capoeira. Quem era o melhor? Na volta para casa levou uma facada. Inês acredita que ele teria sobrevivido ao ferimento, mas não resistiu à falta de cuidados no hospital onde foi internado. Ela não esquece o dia do enterro. Era dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo. O quinto e último filho, José Carlos de Araújo, o mais velho, tinha 40 anos. Emplacava carros perto do Detran. Estava em casa, no Coque, quando dois vizinhos perguntaram se ele conhecia um fulano, marginal, "que eles estavam atrás de matar". José Carlos disse que não conhecia nem tinha tempo para saber de malandro. Levou dois tiros. Foi em fevereiro de 2007. Com medo de serem denunciados, os assassinos ameaçaram de morte Inês e sua neta Liliane, filha de José Carlos, já mãe de uma menina. Elas se esconderam por três meses na casa da filha do caçula, José André. Há três meses, Inês voltou para a casa pobre, onde netos, bisnetos e um cachorro circulam em meio à sujeira. Na parede, fotos dos filhos. Ela só tinha de dois dos cinco - o pagodeiro e o mais velho. Inês diz que não sabe onde encontra forças para viver, mas todos os dias apanha garrafas na rua para vender em um depósito de produtos recicláveis. É assim que arranja um dinheirinho. Gostaria de sair da casa onde viveu com os cinco filhos e onde hoje convive com fantasmas. "Tem dia que eu vejo Zé Carlos em pé, na porta." DOR COMUMA dor de Inês é comum e não causa espanto no Coque, nem em áreas da região metropolitana com altos índices de homicídio. Tornou-se banal. Odete de Lima, de 68 anos, vizinha de Inês, perdeu o filho Fábio de Lima Bonfim, de 32 anos, na manhã do dia 1º. Ele tinha ido passar o réveillon na praia de Boa Viagem, zona sul. Voltava para casa, bêbado, e foi morto. "Ali naquela rua, Inês, naquela esquina onde se tem matado muito", diz Odete, enquanto Inês balança a cabeça: "Eu sei." Fábio estava desempregado, assim como os outros filhos de Odete, José Luciano, de 25, e Carlos, de 22, que se assume como "cachaceiro" e é pai de um menino. "Bebo desde os 7 anos e todo dia às 6h30 já estou indo para a barraca tomar cachaça", diz, rindo. Nenhum desses homicídios teve punição. "A gente tem que se conformar, ficar calada", afirma Inês. "Pra quê denunciar, pra morrer mais ligeiro?". "Não boto fé em polícia", reforça Odete. "E desde quando polícia liga para pobre?" Em 2007 ocorreram 4.585 homicídios em Pernambuco - 53 a menos que em 2006. Além de pequena, a redução - de 2%, se levado em conta o número de mortes por 100 mil habitantes - ainda não indica uma tendência. Nas últimas décadas o Estado se manteve entre os três mais violentos do País. A avaliação é do diretor de pesquisa do Instituto Sangari, Julio Jacobo, que há dez anos acompanha a situação da violência no País. É preciso, segundo ele, avaliar índices em um período de três anos para se constatar uma tendência. Por enquanto, Pernambuco mantém uma espécie de "competição macabra" com o Rio e Espírito Santo pela liderança do ranking nacional de homicídios. Historicamente, lembra Jacobo, sempre houve tendência de se associar a violência à pobreza. Nenhum desses Estados, porém, tem a pobreza como característica. Há Estados muito mais pobres que Pernambuco sem níveis tão altos de violência. Há em comum um contraste: pobreza em meio à riqueza, profundas contradições e desigualdades sociais, falta de expectativa de ascensão do jovem aos símbolos do consumo. Somem-se a isso a crise de valores morais, das instituições, e fatores estruturais. Nesse caldeirão cabem a impunidade, o vale-tudo, a permissividade, a crise no aparelho judicial. Jacobo diz que até 2003, com a campanha do desarmamento, a sociedade estava desprotegida. Autoridades e sociedade civil viam a violência como um fenômeno natural - como um terremoto, diante do qual só resta se proteger. Levantaram-se grades, a segurança foi reforçada. Com a campanha, começou-se a perceber a possibilidade de adotar políticas de prevenção. São Paulo, Rio e Minas já têm maior eficiência no aparelho de segurança, estabilizando e até reduzindo o número de homicídios. Há saída, diz.

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