''Infelizmente, hoje matar é mais importante''

Ex-capitão do Bope vê política de enfrentamento; Rio foi 1.º a se preocupar com tiros nas ruas

Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

08 de julho de 2008 | 00h00

O menino João Roberto Amorim Soares morreu no dia em que a publicação da norma de instrução 010 da Polícia Militar completou 25 anos. Em 7 de julho de 1983, a PM fluminense tornou-se a primeira do País a regulamentar os disparos em via pública - que deveriam ocorrer dentro dos princípios da legalidade (o oponente não pode estar desarmado ou imobilizado) e da oportunidade (sem risco para a população). "A Polícia Militar fluminense já foi muito boa. Infelizmente, hoje prender ou matar é mais importante do que manter vivo o cidadão. Nos últimos 45 dias, a imprensa noticiou pelo menos cinco casos de inocentes que morreram por tiros disparados por PMs em via pública. São exemplos de que a NI 010 não é cumprida", disse o consultor de segurança Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e roteirista de Tropa de Elite.Na conta de Pimentel estão também Ramon Fernandes, de 6 anos, morto na Favela do Muquiço durante perseguição a um traficante; o cantor gospel William de Souza Marins, de 19 anos, confundido com criminoso por policiais do 14º Batalhão (Bangu); o estudante Daniel Duque, de 18 anos, morto na frente da boate Baronetti, em Ipanema, por um PM que fazia segurança para a família de uma promotora; e Brian Alves, de 8 anos, baleado na cabeça dentro de uma lan house em Cidade de Deus."Na academia, os policiais são ensinados que devem evitar atirar, se há risco para a população. Mas parece que os soldados estão seguindo uma espécie de orientação dos superiores de que o confronto é válido. Esse é o discurso da Secretaria de Segurança. O soldado não recebe sinalização nenhuma em contrário. Nos Estados Unidos, a polícia fecha vias, persegue com helicóptero, mas não dispara", afirmou Pimentel.A Associação dos Ativos e Inativos da PM criticou "o péssimo treinamento" dos futuros policiais, que ocorre "em três meses, sem infra-estrutura ou pessoal capacitado".

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