Inglesas acusadas de fraudar seguro são soltas no Rio

As inglesas tiveram os passaportes confiscados e vão permanecer no Brasil até o julgamento

Clarissa Thomé, da Agência Estado,

02 Agosto 2009 | 17h58

Depois de passarem seis dias em carceragens do Rio, as inglesas Shanti Andrews e Rebecca Turner, ambas de 23 anos, relataram à imprensa britânica terem vivido um "pesadelo" na cadeia feminina da Polícia Civil, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Também compararam a penitenciária Bangu 7, para onde foram transferidas e onde permaneceram por um dia, ao "portão do inferno".

 

Elas foram presas no domingo, 26, depois de terem comunicado o roubo de pertences que, no entanto, foram localizados pelos policiais no albergue em que estavam hospedadas. Para a polícia, elas tentavam dar um golpe na seguradora de suas bagagens. As inglesas foram libertadas no fim da tarde de sábado e serão julgadas por estelionato, crime sujeito a pena de 1 a 5 anos de prisão.

 

Em entrevista ao jornal inglês Daily Mail, Rebecca e Shanti contaram que a cela em Mesquita estava superlotada e elas tiveram de deitar no corredor, no chão de concreto. "Mesmo assim era tão apertado que você só podia deitar de um lado", contou Rebecca. "Dormimos duas ou três horas na semana passada, estávamos tão cansadas", disse Shanti.

 

As inglesas queixaram-se ainda de que havia apenas um chuveiro na cela e que chegou a faltar água num dos dias. Não havia descarga no único vaso sanitário. "O cheiro era terrível", afirmou Shanti. Elas disseram que foram bem tratadas pelas detentas em Mesquita, mas tiveram de ficar ao lado de assassinas e traficantes.

 

Na sexta-feira, foram transferidas para Bangu 7. Ali, segundo contaram, outras presas perguntaram se eram lésbicas e elas temeram sofrer algum tipo de abuso sexual. "Quando os advogados disseram que seríamos libertadas, começamos a chorar. Tudo o que queríamos era tomar um banho".

 

As inglesas tiveram os passaportes confiscados e vão permanecer no Brasil até o julgamento, o que deve ocorrer em um mês. A primeira audiência está marcada para quarta-feira. As jovens estão num hotel, com o pai de Shanti. O pai de Rebecca deve chegar nesta segunda-feira.

 

"Elas estão traumatizadas. Não comeram nada do que era servido. Só beberam água mineral. Tiveram muito medo das condições de higiene e sanitárias da prisão. Depararam-se com a situação das nossas carceragens precárias ", afirmou Renato Tonini, advogado das inglesas.

 

O delegado Orlando Zaccone, coordenador de controle de presos da Polícia Civil, disse que há 4 mil presos nas cadeias da polícia e que aguarda a construção de quatro casas de custódia para desafogar o sistema.

 

"Desde 2000 a Polícia Civil tem o projeto de acabar com as carceragens. Infelizmente, faltou decisão política para que isso ocorresse", afirmou o delegado, que assumiu o cargo há cerca de 2 meses.

 

Zaccone espera que, com a construção das casas de custódia, já licitadas, o número de presos em cadeias da polícia caia para mil. "Não temos condições, hoje, de garantir a assistência que a Lei de Execuções Penais prevê, como atendimento médico e programas educacionais", afirmou o delegado. Ele negocia com prefeituras a implantação do programa Carceragem Cidadã, pelo qual médicos e professores dos municípios passariam a atender também presos.

 

O delegado fez ainda uma crítica: "É muito estranho que a sociedade brasileira só dê atenção quando é o estrangeiro que sofre nas nossas carceragens. O sofrimento das brasileiras não é motivo de atenção".

A assessoria de Imprensa da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária informou que só se manifestará na segunda-feira.

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