Fabio Motta
Fabio Motta

Inimagináveis cinco metros de lama

Luzia Queiroz, de 52 anos, e o marido, Caetano Paulino da Silva, de 33 anos, moradores de Paracatu de Baixo, atingidos pelo tsunami de lama

Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 03h00

MARIANA - Sempre que têm uma oportunidade, Luzia Queiroz, de 52 anos, e o marido, Caetano Paulino da Silva, de 33 anos, voltam a Paracatu de Baixo, distrito de Mariana (MG), que também foi destruído pela lama.

Nos fins de semana, costumam se reunir com os antigos vizinhos para fazer churrasco. “A gente continua vindo aqui, mesmo sem água, sem luz, sem esgoto, sem nada”, conta Luzia, andando pelo terreno do que um dia foi a sua casa. “Porque isso aqui é nosso. A terra é nossa.”

Os dois lembram bem do dia da tragédia. Eles já sabiam que uma tsunami de rejeitos tinha invadido Bento Rodrigues, mas, mesmo assim, tiveram dificuldade de acreditar que chegaria a Paracatu.

Mas chegou. E em duas frentes, formando uma verdadeira pororoca. 

A marca na parede da Igreja e, em frente, na altura do segundo andar da escola municipal, são a prova de que a lama chegou a inimagináveis cinco metros soterrando completamente a parte central do vilarejo, onde aconteciam as festas religiosas e de onde partiam as procissões e as cavalgadas.

Atrás da igreja ficava o campo oficial de futebol, onde o time local jogava nas datas festivas. A trave do gol, quase completamente soterrada é outro testemunho silencioso do alcance da destruição.

A casa de Luzia e Caetano, que ficava em um terreno mais alto, não foi completamente soterrada, como a de Nalva. Mas ficou igualmente inabitável. “Vivemos o Mar Vermelho: vimos a Terra Prometida, mas não conseguimos chegar lá”, conta Luzia. “Perdemos tudo, perdemos nossa identidade”

Luzia sente falta do céu limpo, nas noites quentes em que a família toda dormia junto, no terraço da casa.  “Se eu estendesse as mãos, dava para pegar as estrelas.” Ela também sente falta das festas religiosas da comunidade e do convívio diário com amigos e parentes.

Agora, vivendo provisoriamente em Mariana, cada um mora em um lugar diferente.

“Isso aqui era viver, respirar; não uma casa agarrada na outra, as crianças todas presas dentro de casa”, diz fazendo um gesto amplo com o braço, abrangendo o vilarejo. “Meu sogro não tem mais terra, hoje ele planta nos vasos.”

A mudança de um cotidiano rural para um dia a dia urbano deixou suas marcas na comunidade.

“Muita gente adoeceu, de fibromialgia, de coluna, de depressão, de tristeza”, resume Luzia.

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