Inmet testa meteorologia da saúde em 13 capitais

Objetivo é cruzar indicadores de temperatura e de doenças

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) testa uma nova ferramenta capaz de prever, com até uma semana de antecedência, quantas internações hospitalares serão provocadas por influência do clima. Na prática, será possível saber o acréscimo de pacientes com crises respiratórias e cardíacas em semanas marcadas por calor, frio, alta concentração de gases tóxicos. O estudo está sendo feito inicialmente em 13 capitais do Brasil, incluindo São Paulo. Quando concluído, permitirá à população descobrir se, do mesmo modo como hoje sabe se vai chover ou esfriar amanhã, ter dados sobre aumento de internações por bronquite ou asma, por exemplo.A aplicação da "meteorologia da saúde" foi idealizada pela pesquisadora Micheline Coelho, que trabalha no Inmet, para nortear autoridades em estratégias de prevenção e atendimento, já que o combinado de fatores meteorológicos e gases tóxicos é responsável por crises respiratórias, enfartes, derrames e até mortes. Micheline usa o Modelo Brasileiro de Clima e Saúde, que adota o mesmo princípio da previsão do tempo, cruzando-o com números de internações. "Em breve, além da agricultura, a meteorologia poderá auxiliar mais uma área da sociedade: a saúde."O passo inicial da nova "previsão de internação" foi dado na capital há quatro anos. Micheline avaliou registros de 67.538 internações por asma, bronquite e pneumonias, cruzados com dados de temperatura do Instituto de Astronomia da USP e medições de poluição da Cetesb. Entre as conclusões está que, quando a concentração de dióxido de enxofre (SO2) aumenta até 0 a 10 mg/m3, as internações por motivos respiratórios crescem 13,9%. No caso do monóxido de carbono (CO), a variação de 0 a 16 ppm provoca 82,6% a mais de pacientes internados. A necessidade de uma ferramenta para aferir impactos meteorológicos no movimento dos hospitais é respaldada por ensaios clínicos. O último estudo, divulgado neste mês pelo Laboratório de Poluição da USP e conduzido pelo médico Paulo Saldiva, atestou que ondas de frio (quando termômetros mudam bruscamente de temperatura) provocam sete mortes de idosos a mais por dia. Quando o fenômeno é inverso, ondas de calor, são três pessoas com mais de 65 anos que não sobrevivem no dia. "O corpo humano não está preparado para lidar com extremos, por isso o aquecimento global é tão nocivo."Trabalho feito pela Sociedade Paulista de Cardiologia (Socesp), de autoria do médico Luiz Antônio César, atestou com base em 12.007 vítimas de enfarte na capital que, quando a temperatura passa de 27°C, casos de pane no coração sobem 11%. Já quando os registros térmicos ficam abaixo dos 10°C, o aumento de ocorrências cardíacas chega a subir 33% em um único dia.O urologista Jorge Hallack, do Hospital das Clínicas, está concluindo um ensaio que relaciona o aumento da poluição à infertilidade masculina. Na Revista de Saúde Pública, edição do ano passado, foi publicado que, em concentrações de poluentes maiores do que o padrão seguro, os diabéticos sofrem quase três vezes mais (2,85) problemas cardíacos do que os não diabéticos - foram avaliados 45 mil pacientes.Se a "meteorologia da saúde" der certo para todas as capitais testadas - Rio, Vitória, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Cuiabá, Brasília, Campo Grande, Goiânia, Salvador, Palmas e São Paulo -, será possível, segundo Micheline, abastecer pela internet todas as cidades brasileiras.

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