Inocente fica preso por mais de 1 ano

Acusado de matar enteado quando tentava reanimá-lo, padrasto se livra de condenação em júri por 6 votos a 1

José Dacauaziliquá, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 00h00

Um ano, cinco meses e 19 dias. Esse foi tempo que o motorista André Ramalho de Lima, de 27 anos, passou na cadeia, acusado de matar seu enteado, Bryan de Souza Santiago dos Santos, de 2 anos, até ser levado a julgamento. O que a polícia considerava assassinato planejado, a promotoria entendeu como morte acidental. E os jurados foram além: absolveram o réu por 6 votos a 1.Na época em que foi preso, Lima era réu primário, tinha residência fixa e carteira de trabalho assinada. Mas isso de nada valeu. Para contar a história de Lima, a feirante Inácia Ramalho de Lima, de 62 anos, sua mãe, volta ao dia 19 de setembro de 2003, quando o filho tentou socorrer Bryan, um dos três filhos de sua companheira, Marlene Rita de Souza, de 28 anos, frutos de um relacionamento anterior. O menino tinha problemas cardíacos e pulmonares.Naquele dia, a mulher foi dar banho nas crianças. Minutos depois, Lima foi para o quarto e viu Bryan passando mal. Saía sangue de sua boca. "Meu filho entrou em desespero e tentou reanimar o menino: fez respiração boca a boca e massagem cardíaca", diz Inácia. Mas Lima não tinha preparo para realizar esses procedimentos. O pouco que sabia sobre primeiros socorros, havia aprendido dias antes, por um programa de TV.A Polícia Civil entendeu que a morte foi premeditada, por motivos de ciúmes. No inquérito, a polícia concluiu que o acusado havia cometido homicídio doloso (com intenção) com três qualificadoras: motivo fútil, motivo torpe e impossibilidade de defesa da vítima.Em 27 de janeiro de 2006, ele foi preso e levado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), onde passou três dias. Sua prisão preventiva foi acatada e ele foi transferido para o Centro de Detenção Provisória (CDP) da Vila Independência, no Ipiranga, zona sul.O promotor de Justiça Carlos Roberto Talarico participou do julgamento de Lima, no último dia 16, no Fórum da Barra Funda. Foi ele quem pediu que o réu fosse julgado por homicídio culposo (sem intenção). Talarico conta que dias antes de sua morte, Bryan recebeu uma transfusão de sangue, que geralmente deixa manchas escuras no corpo - o que contribuiu para que a polícia acreditasse que o menino tivesse apanhado.Além disso, os laudos médicos apontaram uma ruptura no fígado da vítima. "Mas não havia nenhuma marca de agressão externa que justificasse a lesão do fígado", afirma o promotor. Ele então entendeu que se tratava de homicídio culposo porque o acusado teria tentado salvar o menino, mas não soube aplicar corretamente os procedimentos. Os jurados não condenaram Lima nem por isso.

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