Inocente, mãe ainda responde pela morte da filha

Exames descartaram presença de cocaína na mamadeira, mas MP mantém acusação, 1 ano depois

Simone Menocchi, TAUBATÉ, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Um ano depois de comprovar que não matou a própria filha, Daniele Toledo do Prado, de 22 anos, continua respondendo pelo crime de homicídio duplamente qualificado com overdose de cocaína. "A Justiça é rápida para errar e lenta pra corrigir o erro", desabafa a jovem, revoltada com a demora do processo e com a acusação. Daniele ficou presa por 37 dias, acusada de matar a filha Victória Maria do Prado Carvalho, de 1 ano e 3 meses, no dia 29 de outubro do ano passado, com cocaína na mamadeira. A suspeita foi levantada por uma enfermeira e uma médica do Pronto Socorro Municipal de Taubaté, no Vale do Paraíba, onde a criança havia sido internada com convulsões. Naquele dia, um exame preliminar feito com um teste rápido na mamadeira apontou a existência do entorpecente. Presa em flagrante, Daniele foi jogada em uma cela com outras 19 detentas da cadeia de Pindamonhangaba. Ali mesmo foi "julgada" e "punida". Em conseqüência das agressões, perdeu 95% da visão no olho direito e parte da audição."Furaram meu ouvido com caneta, me chutaram, me bateram muito." Três exames definitivos mostraram, na época, que não havia nenhum resíduo de cocaína na mamadeira e a Justiça decidiu libertar Daniele por falta de provas. Mais tarde, exames das vísceras do bebê, também comprovaram a inexistência da droga. Mesmo assim, o Ministério Público manteve a acusação. A advogada Gladiwa de Almeida Ribeiro não descarta a possibilidade de Daniela ir a júri popular. Segundo a advogada , o MP poderia ter feito um aditamento modificando a denúncia. "Pedimos o encerramento do processo, mas o Tribunal de Justiça negou, alegando que Daniele não sofre constrangimentos", disse Gladiwa. A Justiça ainda não sabe a causa da morte da menina e por este motivo mantém a acusação. Aos três meses de idade Victória começou apresentar crises convulsivas e daí em diante as internações se tornaram rotineiras. Dias antes de morrer havia ficado 25 dias internada no Hospital Universitário de Taubaté, em tratamento. Foi nessa época que Daniele denunciou um estudante do curso de Medicina da Universidade de Taubaté de estupro, em 8 de outubro. Exames de corpo de delito comprovaram o abuso sexual e até hoje o crime está sendo investigado. "Deve ocorrer em breve a reconstituição desse crime." Daniele está em liberdade provisória, mas sai raramente de casa. Ela tentou pedir emprego, mas não conseguiu: "Tenho medo da reação das pessoas quando me olham, de lidar com o público e as pessoas ficarem me apontando, como ainda acontece", diz. "Eu me sinto aprisionada, revoltada. Não confio na Justiça."

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