Inquérito contra bispo vai ao STF

Bispo Gê assina contrato de reforma e poderá responder por negligência

Marcelo Godoy, Bruno Tavares e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

29 Maio 2009 | 00h00

Diante dos indícios de culpa do deputado federal Bispo Gê (DEM-SP) na tragédia da Igreja Renascer em Cristo, a Polícia Civil de São Paulo decidiu ontem propor à Justiça o envio do inquérito do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), pois como deputado, o bispo, que preside a igreja, tem foro privilegiado. Em 18 de janeiro, o teto da sede internacional da Renascer, no Cambuci, região central de São Paulo, desabou, deixando nove mulheres mortas.Assinado pelo delegado Marcel Luís de Campos, o relatório feito pela 1ª Delegacia Seccional (Centro), a mando do delegado Dejar Gomes Neto, afirma que dias antes do "fatídico evento" placas do forro da igreja caíram perto do altar e chegaram a ferir fiéis, "porém não há notícia de que a administração da Igreja Apostólica Renascer em Cristo tenha adotado providências". O relatório prossegue dizendo ser "inequívoca a responsabilidade dos engenheiros envolvidos na reforma do telhado da igreja, em 1999 e 2000, quando as tesouras que sustentavam o telhado receberam reforço metálico". É que uma das tesouras, que ficava sobre o altar, ficou sem o reforço metálico.O relatório também cita a suposta "postura negligente dos administradores da igreja" por terem contratado a empresa Etersul Coberturas e Reformas Ltda, responsável pela reforma do telhado entre julho e dezembro de 2008. A polícia aponta o fato de a Etersul não ser registrada no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) e de ela não ter fornecidos à igreja os documentos legalmente exigidos."À vista dos elementos, emergem indícios de responsabilidade em relação ao presidente da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, subscritor do contrato com a Etersul". De fato, é o Bispo Gê quem assina o contrato com a empresa para a reforma do telhado em 1º de julho de 2008. O relatório da polícia diz que a igreja foi omissa na fiscalização do trabalho da reforma, feita sem o acompanhamento técnico de um engenheiro "a despeito da legislação vigente e do próprio histórico da estrutura do telhado do imóvel". Durante todo o período da reforma até o acidente, a presidência da igreja foi ocupada pelo deputado federal.O inquérito de 2.066 páginas sobre o acidente durou quatro meses e ouviu 140 testemunhas. Além do bispo e dos engenheiros, o inquérito aponta para a conduta do empresário Daniel dos Anjos, dono da Etersul, e dos peritos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que atestaram que todas as tesouras do telhado haviam sido reforçadas em 2000, o que não era verdade, conforme laudo do Instituto de Criminalística.

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