Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Inquérito contra João de Deus foca em vítima que teria recebido 'presente' após reagir a abuso

Investigação deve ser concluída até sexta-feira, 21; demais casos passados à polícia perderam prazo legal por terem sido abertos mais de seis meses após data do suposto crime

Renan Truffi, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2018 | 15h04

GOIÂNIA - A Polícia Civil de Goiás deve se basear em um único caso de abuso sexual para concluir o primeiro inquérito contra o médium João Teixeira de Faria, o João de Deus. A investigação está prevista para ser concluída até sexta-feira, 21, e vai mostrar que o líder religioso ofereceu presentes, como uma pedra de valor e um quadro religioso, depois de tentar atos libidinosos com uma mulher, de aproximadamente 40 anos.

Inicialmente, a investigação tinha 15 casos, mas apenas um deles aconteceu depois de junho de 2018, pois, até setembro, o código penal determinava prazo máximo de seis meses para a denúncia após o crime. Segundo a investigação, essa vítima teria sido abusada em outubro deste ano.  Na terça-feira, a polícia apreendeu cinco armas e mais de R$ 405 mil em dinheiro na casa do médium.

A reportagem apurou que a mulher visitou a Casa Dom Inácio de Loyola, onde João de Deus fazia atendimentos espirituais, várias vezes e sempre acompanhada de um namorado. Em uma dessas ocasiões, ela ficou sozinha com o médium em uma sala para a consulta espiritual. Com as luzes apagadas, João de Deus teria começado a tocar próximo à região íntima da denunciante que, neste momento, percebeu que ele estaria com o órgão sexual exposto. 

Aos policiais, a vítima contou que, quando percebeu a tentativa do médium, teria resistido e interrompeu qualquer contato físico. Nesse momento, João de Deus teria oferecido uma pedra de valor e um quadro religioso para a vítima. A reportagem apurou que, em seu depoimento à Polícia Civil, João de Deus disse não se lembrar de ter dado esta pedra, mas admitiu a oferta de "quadros".

Os policiais envolvidas na investigação ainda resistem em dizer se o inquérito vai concluir que, efetivamente, João de Deus tentou silenciar a vítima com a oferta de presentes. Um delegado envolvido nos trabalhos disse ao Broadcast Político que "provavelmente" essa será uma das provas a embasar a denúncia.

Apesar disso, como se trata apenas de um único caso, a Polícia Civil de Goiás deve oferecer a denúncia de João de Deus por um único crime: o de "praticar ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima", tipificação presente no artigo 215 do Código Penal. A pena prevista para esse crime é de até seis anos de reclusão, em regime fechado.

Ainda assim, a Polícia Civil e o Ministério Público de Goiás podem abrir outros inquéritos contra o médium a partir de novas denúncias. Somente o MP já recebeu mais de 500 relatos de abuso sexual e outros 30 casos foram formalizados por meio de depoimentos colhidos presencialmente nos Estados. 

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