Insegurança não reflete estatísticas

Especialistas consideram números da criminalidade estáveis, mas facilidade de acesso a armas pesadas preocupa

TATIANA FÁVARO e BRUNO TAVARES, O Estadao de S.Paulo

14 Fevereiro 2009 | 00h00

Apesar da sensação de insegurança relatada por moradores de cidades do interior paulista, as estatísticas divulgadas pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) mostram que a criminalidade se manteve estável nos últimos anos. O número de homicídios dolosos na região sob jurisdição do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior (Deinter) 2, que abrange Campinas e outras 37 cidades, cresceu de 93 no quarto trimestre de 2007 para 100, no mesmo período do ano passado - variação considerada normal por especialistas. Mesmo diante da violência e do poder de fogo demonstrados pelos bandidos, delegados das regiões de Sorocaba e São José dos Campos, duas das mais populosas do Estado, não acreditam que quadrilhas da capital ou da Grande São Paulo estejam migrando para cidades menores. "O interior pode até ter um efetivo policial inferior ao da capital, mas aqui os criminosos encontram outros tipos de dificuldades, como o desconhecimento de rotas de fuga e a possibilidade de serem capturados nas estradas com o armamento", pondera um delegado ouvido pelo Estado. Segundo o policial, as investigações mais recentes mostram que os bandidos envolvidos em crimes bárbaros, como o assassinato dos empresários Robson e Ana Paula Tempesta e das duas filhas deles, em 14 de janeiro, em Americana, costumam ser moradores da própria região. "Uma pessoa estranha numa cidade do interior chama mais a atenção dos vizinhos do que na capital. Se alguém aluga uma casa para usar de ponto de observação ou cativeiro, pode ter certeza que no dia seguinte será notado", diz o delegado. Para a professora de Psicologia Forense da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Maria de Fátima Franco dos Santos, a exportação de um modus operandi de quadrilhas organizadas da capital para o interior é um fenômeno explicado por diversos fatores, entre os quais ela destaca a facilidade de acesso ao armamento pesado, a existência de penas rigorosas não aplicadas adequadamente, a banalização da violência e a falta de prevenção nos locais considerados mais seguros. "Como a capital está mais exposta, acaba tendo mais força para se defender. No interior as pessoas estão mais desprevenidas por ser algo incomum um caso desse porte (do arrastão de Jundiaí)", afirmou. "Outros aspectos são o fato de o crime organizado ter pessoas em várias cidades e a banalização da violência, onde ninguém mais se choca." As estatísticas dos últimos três anos também ajudam a derrubar a tese de que a construção de penitenciárias contribui para o aumento da criminalidade. Na região de Presidente Prudente, por exemplo, com dois presídios de segurança máxima, o número de homicídio caiu de 23, no 4º trimestre de 2005, para 10, no mesmo período de 2008. E os roubos se mantiveram estáveis.

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