Instituto recupera Cassino da Urca

Projeto de escola de design italiana enfrenta resistência de moradores

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2009 | 00h00

Fechado e abandonado por três décadas, desde a falência da TV Tupi, o prédio de 1922 que já abrigou o Hotel Balneário e o Cassino da Urca, na zona sul do Rio, será reaberto ao público em abril com nome italiano: Istituto Europeo di Design - IED. Trata-se de uma previsão do grupo estrangeiro que ganhou da prefeitura a concessão do lugar por 25 anos (renováveis), sem concorrência, e já gastou R$ 6 milhões na reforma, apesar da oposição da Associação dos Moradores da Urca (Amour).Os italianos pretendem desembolsar mais R$ 10 milhões para concluir até 2011 a restauração do teatro anexo, em estilo art déco, que ficou famoso na década de 1930 com apresentações de artistas como Carmen Miranda e Dick Farney. As salas de aula do IED estão prontas, mas a briga com a Amour continua. Em cartazes espalhados pelo bairro e na Justiça. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) também havia entrado na disputa por causa de um edifício-garagem que estava previsto no projeto, ao lado do antigo cassino. "Fizemos exigências, que foram cumpridas, e o projeto foi aprovado", disse o superintendente do Iphan no Rio, Carlos Fernando Andrade. Tombado pelo município, o prédio de 3 mil metros quadrados tem características do estilo eclético. São dois blocos entre a praia e a montanha, unidos por um passadiço sobre a única via de acesso ao bairro. As salas de aula ficam naquele de frente para a praia, que internamente estava em ruínas. Durante as obras, foi descoberta a antiga fachada em arcos do Hotel Balneário, encoberta durante ampliação realizada nos anos 30 para a construção de uma grande sala de jogos. A nova estrutura interna de ferro destaca essa arcada, no salão principal. Haverá um mirante semicircular e um café no terraço, com vista para a Baía de Guanabara e o Cristo Redentor.Segundo o IED, a visitação será aberta. Serão mantidos, na próxima fase da reforma, a geometria original do palco e o mezanino do teatro para 200 pessoas, no segundo bloco, que recebeu Walt Disney em 1941. Cinco anos depois, o jogo foi proibido, e o cassino, desativado. No fim daquela década, os estúdios da TV Tupi foram instalados no prédio. O auditório foi palco de programas como o de calouros apresentado pelo compositor Ary Barroso. A TV saiu do ar em 1980.CONDOMÍNIO FECHADOO IED do Rio será o oitavo do mundo. As aulas, segundo estimativa do grupo, começarão em agosto. O aluno poderá iniciar sua formação na cidade, passar por Milão, onde fica a sede, e terminar o curso em Barcelona. Também há unidades em Roma, Turim, Madri, Veneza e São Paulo (desde 2005). O curso não será barato - custará cerca de R$ 2 mil. Mas, como se trata de uma concessão pública, 10% das vagas serão reservadas para a Secretaria Municipal de Cultura. Haverá cursos de graduação, extensão e pós-graduação em Moda, Design, Artes Visuais e Comunicação. A formação básica vai durar três anos.Celinéia Paradela, presidente da Amour e moradora da Urca desde 1971, reclama da falta de licitação na concessão e de eventuais impactos no trânsito. Ela procurou o Ministério Público e foi à Justiça com duas ações contra o IED. Não conseguiu que fossem deferidas liminares, mas a briga continua. "Eles (o IED) estavam escorados em um prefeito que não está mais no poder. Está tudo irregular." O objetivo, diz, é "manter a Urca para os cariocas".Ela reconhece que o IED "será um ganho" para o Rio, mas critica a escolha do bairro onde mora e faz uma sugestão: "Por que não foram para a Lapa (no centro)? Por que insistem em trazer o IED para um bairro de ruas estreitas, sem estacionamento? Aqui não cabe mais nada." Celinéia refuta a ideia de que vê a Urca como um condomínio fechado. "Não tem essa de morador exclusivista, eles (o IED) estão querendo vender essa imagem." A Amour queria um Museu da Cidade no local, como a prefeitura havia planejado. No entanto, faltou dinheiro. "Isso, sim, era compatível com o tamanho do bairro."A fotógrafa Patrícia Gouvêa, moradora da Urca há 17 anos e dona do Ateliê da Imagem, instalado no bairro, é uma das poucas a falar abertamente a favor do IED. "O ponto turístico mais visitado do Brasil fica aqui, o Pão de Açúcar, e também temos coisas muito ruins. Mas ninguém fala disso, só fala do IED, como se fosse uma praga", diz. Ela cita problemas de desordem urbana, sujeira nas praias e estacionamento irregular. "Acho que o IED pode ajudar a criar soluções." O bairro tem 6.750 moradores, segundo o último censo.DEMOCRACIAFuturo morador da Urca, o diretor do IED, Riccardo Zarino, diz que as críticas da Amour "estão na base da democracia". "Queremos fazer parte do melhor bairro do Rio, se possível ajudando a melhorar. Faremos um esforço para resolver o problema do trânsito, sem alterar nada. O cassino é um ícone do Rio", diz. "É um projeto mais cultural do que empresarial." O prefeito Eduardo Paes (PMDB) disse entender as reclamações de moradores, mas garantiu a continuidade das obras e a inauguração do IED. "A vinda do IED é de grande importância não só para o Rio como para o País, e a prefeitura está estudando formas de minimizar o impacto no bairro da Urca."O instituto, que aguarda o Habite-se, afirma que cumprirá nas próximas semanas exigências feitas pela Companhia de Águas e Esgotos do Rio e pelos bombeiros. O letreiro dourado com a marca "TV Tupi Canal 6" foi mantido na entrada.

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