‘Integrar-se a facção acaba sendo uma espécie de estratégia de sobrevivência’, diz Amazonas

Governo diz que presos são intimidados a integrar facções como a Família do Norte, mas que vem atacando o tráfico de drogas, principal fonte de renda das organizações criminosas

Marco Antônio Carvalho, Enviado Especial

29 de dezembro de 2017 | 22h00

MANAUS - O governo do Amazonas disse em resposta a questionamentos do Estado parte da força da Família do Norte (FDN) vem da intimidação que os seus integrantes realizam contra outros presos. “A violência é, justamente, o maior mecanismo de dominância dessas facções, dentro e fora dos presídios. Devido ao tamanho que a FDN possui, o preso sabe que se desobedecer, corre risco de morte. Então se integrar a uma facção acaba sendo uma espécie de estratégia de sobrevivência”, diz a administração do governador Amazonino Mendes (PDT).

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A gestão, que assumiu o governo em outubro deste ano após a cassação do mandato de José Melo (PROS), diz que tem atacado o crime organizado de diversas formas. “Estamos atacando a principal fonte de renda do crime e das facções que é o tráfico e procurando aplicar o rigor da lei para colocar os criminosos na cadeia. Neste ano de 2017, o Amazonas apreendeu 13 toneladas de entorpecentes, entre cocaína e maconha, é o maior volume de drogas apreendidas da história”, informa. 

Sobre a situação do Compaj, listou uma série de mudanças, como recuperação das áreas destruídas e o reforço no sistema de monitoramento, possibilitando “pronta-resposta em casos de anormalidade detectada”. “A Polícia Civil conduziu as investigações sobre os envolvidos no massacre, com o inquérito concluído, o MPE denunciou 213 pessoas suspeitas de envolvimento com o massacre. Os 17 presos apontados como líderes do massacre foram transferidos para presídios federais, onde permanecem.”

Por fim, disse ter iniciado processo de licitação de obras de novos presídios em Manacapuru, Parintins e Tefé. “A projeção do Governo é construir mais cinco unidades no interior que, assim como as quatro já em licitação, funcionarão como cadeias-polo, evitando a transferência de presos para Manaus e a manutenção de carceragens em delegacias.”

'Seria utopia falar que não vai morrer mais ninguém', diz secretário de Roraima

O secretário-adjunto de Justiça do Estado de Roraima, o capitão PM Diego Bezerra, disse esperar melhorias significativas no sistema penitenciário ao longo do ano de 2018. Na sua sala na sede da secretaria, vizinha à Cadeia Pública de Boa Vista, Bezerra elenca os motivos que o levam a ter esperanças para o ano que vem: reforma da Penitenciária Agrícola Monte Cristo, retomada da construção da penitenciária de Rorainópolis, construção de um novo presídio nas proximidades da Monte Cristo e reforma do anexo da Cadeia Pública. Tudo isso, conta, deverá reduzir o déficit hoje existente de 1,2 mil vagas. O Estado tem um total de 2,7 mil presos.

Ao longo de 2017, as medidas tomadas consistiram em separar as facções, retirando os inimigos do PCC da Monte Cristo. “Hoje, não temos grupos opositores na mesma unidade prisional. Isso facilita o controle e diminui a possibilidade de um novo massacre”, diz.

Ele atribui os problemas que persistem na Monte Cristo a “mais de 20 anos de descaso, abandono e falta de investimento na área”. “Não é da noite para o dia que se resolve esse problema”. Sobre a demora em fazer tramitar os convênios com o governo federal para reforma e construção de cadeias, Bezerra diz que “ninguém constroi um presídio da noite para o dia”. “É algo que demora e temos de respeitar o trâmite.”

Questionado sobre os rumores de preparação para um novo massacre, conforme relatado ao Estado por parentes de presos e um agente penitenciário que trabalha no presídio, o capitão disse que acreditar que as mortes não se repetirão. “É claro que mortes em presídios vão acontecer, aqui em Roraima, como no Amazonas, em São Paulo, nos Estados Unidos. E as mortes vão continuar acontecendo porque infelizmente elas acontecem e acontecem em qualquer lugar do mundo. Seria uma utopia falar que não vai morrer mais ninguém. Vai morrer em Roraima, no Rio, nos Estados Unidos, no Canadá”, diz.

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