Intelectuais vão ao front contra Hitler

Artistas, historiadores e poetas integraram a FEB; maioria deles pediu para ir à guerra

Marcelo Godoy,

25 Agosto 2012 | 15h45

O soldado dissimula o horror da guerra para suportá-lo. A enfermeira Clarice Lispector descobriu isso por acaso. Habituar-se à morte e seguir adiante foi o que fez o soldado Jacob Gorender. Antes da ação, a consciência incomodava o sargento Boris Schnaiderman. Seria capaz de matar? O barulho, o cheiro e a fumaça da primeira granada bastaram para lhe dissipar o pensamento. Era "nós ou eles", não havia jeito. Era preciso atirar. E matar.

Clarice foi à Itália por causa do marido diplomata, enviado à Roma. Schnaiderman foi para a batalha aos 27 anos, após traduzir pela primeira vez uma obra de Dostoievski - Os Irmãos Karamazov. Gorender tinha 21 e uma carreira no jornalismo interrompida como o curso de Direito, deixado no 4.º ano. Em um País que em 1940 tinha 56% de analfabetos, eles eram intelectuais. Tinham convicção da necessidade de combater o nazismo. Foram voluntários.

Judeus e atraídos pelo prestígio da União Soviética, Gorender e Schnaiderman foram alguns dos homens de letras que combateram, assim como o artista plástico Carlos Scliar, o poeta Geraldo Vidigal, o economista Celso Furtado e o historiador Eurípedes Simões de Paula, mais tarde professor da Universidade de São Paulo.

Outros não lutaram, como a escritora Clarice Lispector, que se fez enfermeira voluntária, e os correspondentes de guerra Rubem Braga (Diário Carioca) e Joel Silveira (Diários Associados).

Democratas como Vidigal estiveram entre os estudantes contrários à ditadura de Getúlio Vargas e favoráveis à guerra contra Hitler. Acabou convocado. Todos conviveram com a morte. A casualidade estava na rajada de balas pela janela, cortando o cômodo a centímetros da cabeça de Schnaiderman. O acaso passava na imprevisível trajetória de estilhaços de granadas ao redor de Gorender. Ele matava tanto quanto tiros do inimigo. Poucos centímetros e eles estão vivos.

Rendição. Os intelectuais se misturaram à tropa, aos seus hábitos, linguagem e crueza. Prevaleceu o espírito da caserna, não o dos livros. Braga, Silveira, Gorender, Vidigal e Scliar colaboraram com textos e desenhos para O Cruzeiro do Sul, jornal da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Gorender testemunhou a rendição alemã, em 1945. "Lembro do que disseram dois oficiais nazistas: 'Nicht mehr krieg', não queremos mais guerra."

É dele o texto em O Cruzeiro do Sul saudando o fim do conflito, com esperança de paz duradoura. O marxismo de Gorender não impediu que fosse homenageado pelo Exército em 2010. Schnaiderman deixou a militância comunista em 1956, após denúncia dos crimes de Stalin. "Eu não tinha nada a ver com o stalinismo." Tradutor de Maiakovski, sua memória da FEB é também literária. "Olhava aqueles soldados marchando e me lembrava de Nada de Novo no Front, de (Erich Maria) Remarque." Depois da guerra, levou 19 anos para escrever Guerra em Surdina, em que a influência do alemão Remarque e do russo Isaac Babel é clara. Nascia o maior romance até hoje escrito sobre a FEB.

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