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Precisamos de canais de diálogo para combater o conspiracionismo

Só quando pararmos de olhar os negacionistas, terraplanistas, anti-vaxxers, conspiracionistas em geral, de cima para baixo vamos compreendê-las

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 07h00

Ainda não tinha assumido publicamente minha resolução de ano-novo, mas lá vai: este ano não quero emagrecer, malhar mais nem passar mais tempo com a família. Quero algo mais radical e difícil: respeitar a inteligência dos negacionistas, terraplanistas, anti-vaxxers, conspiracionistas em geral. Não quero concordar com eles. Não quero sequer visitar seus mundos paralelos. Mas quero afirmar que morar num desses universos alternativos não é questão de inteligência ou falta dela.

Há muito mais por trás desse fenômeno pernicioso em diversos níveis, e reduzir a questão à ignorância ou estupidez não só é injusto, como inútil. Há cientistas que surpreendem ao dizer que desconfiam das vacinas; engenheiros competentes que acreditam ser a Terra um grande disco de pizza; se quisermos ter alguma chance de combater o conspiracionismo precisamos abrir canais de diálogo. A alternativa nós já conhecemos e temos visto no que dá. Em nada.

O primeiro passo é compreender que as lacunas em nossa compreensão do mundo são enormes, vêm crescendo continuamente e só tendem a aumentar. Quando morávamos nos vilarejos, plantávamos o que comíamos, esquentávamo-nos com fogo, cronometrávamos os dias pela luz solar, tudo era de fácil compreensão. Qualquer criança via como funcionava uma bomba puxando água. As comidas que faziam mal eram as estragadas. Quando a pessoa parava de respirar e o coração de bater, estava morta. Se dermos um salto para nossos dias, não sabemos o que fazer quando acaba a água em casa, ficamos perdidos entre as informações desencontradas sobre o que é uma dieta saudável, não conseguimos explicar a diferença entre coma e morte encefálica.

Sem ter acesso direto à forma como o mundo funciona é preciso acreditar cada vez mais em intermediários. Não só encanador, nutricionista e médico, mas mesmo em questões prosaicas é preciso tomar a palavra de outros como garantia. Nós não conhecemos o motorista do ônibus em que entramos – apenas acreditamos que se ele está ali alguém o certificou (nem sabemos muito bem quem).

Não vemos como são preparadas as comidas que consumimos – simplesmente imaginamos que haja fiscalização. E assim seguimos – se parássemos para pensar em cada coisa assim só seria possível viver numa colônia amish tradicional. Mas quando os assuntos são delicados ou se tornam relevantes, por serem potencialmente ameaçadores ou apenas por entrar na moda, eles ganham atenção e tais lacunas podem se tornar evidentes – e incômodas. Quem sabe realmente como funcionam as vacinas – e quantos de nós pudemos conhecer suas fábricas? Como é possível para um leigo levar em conta a bioquímica do metabolismo de açúcares e gorduras na hora de cozinhar para a família? Como ter certeza de que aquelas fotos e satélite mostrando a Terra esférica não são montagens muito bem feitas?

O grau de desconfiança das pessoas varia – há a minoria muito crédula, uma grande massa intermediária e os outros minoritários desconfiados em excesso. É nesse grupo que prosperam as teorias conspiratórias. Isso acontece quando se insufla a desconfiança com as explicações habituais – e oficiais – e se oferecem explicações alternativas que ocupam seu lugar.

Não tem a ver com inteligência – quem adota uma teoria dessas simplesmente aceita explicações que não pode verificar pessoalmente, exatamente como o restante de nós. A diferença é que essa explicação alternativa, que a distingue da interpretação majoritária da sociedade, encontra mais facilidade de ser aceita por sua mente, provavelmente por se encaixar melhor no seu conjunto mais amplo de crenças. Seus pares, amigos, familiares, modelos, compartilham de tais crenças, criando sensação de pertencimento, inclusão, reforçando sua identidade. Uma vez tão bem encaixada, remover essa peça ameaça toda a construção da autoimagem da pessoa, por inteligente que seja.

Só quando pararmos de olhar essas pessoas de cima para baixo teremos possibilidade de compreender quais ansiedades que essas teorias estão amainando. E só assim poderemos começar a pensar quais possibilidades de oferecer o mesmo conforto, mas sem falsas informações.

É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP) 

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