Interesses partidários embaralham a cena trabalhista

Interesses partidários embaralham a cena trabalhista

Análise:

Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

25 de março de 2010 | 00h00

Março é o mês em que, de acordo com o ritual legal, os funcionários públicos do Estado negociam com o governo suas reivindicações de melhorias nos salários e nas condições de trabalho. Em anos eleitorais esse processo tende a se tornar mais tenso, devido às implicações políticas que envolve. Sabendo que se trata de um período delicado para os detentores de cargos executivos, mais interessados em expor publicamente as conquistas de seus governos do que as mazelas, os funcionários tendem a radicalizar suas ações. Faz parte do jogo e todo governante enfrenta esse impasse em algum momento.

O quadro se complica mais ainda quando interesses partidários também entram em cena. Atualmente, em São Paulo, os dois sindicatos que promovem as ações mais radicais nas negociações com o governo estadual, nas áreas de educação e saúde, são filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT) - a maior central sindical do País, historicamente ligada ao PT. Por mais justas que sejam as reivindicações, é difícil não associar a ofensiva sindical ao fato de que ela mira José Serra, que, além de governador, é pré-candidato a presidente da República pelo PSDB e, segundo as pesquisas, principal concorrente da pré-candidata petista, Dilma Rousseff.

No caso dos professores, há que se considerar também as disputas internas da Apeoesp - a entidade que os representa. Sindicalistas e militantes ligados ao PSOL e ao PSTU disputam o poder com o PT e contribuem para a tomada de posições mais radicais.

Em relação aos delegados da Polícia Civil, que iniciaram ontem uma operação padrão e ameaçam o governo com uma greve, o quadro é mais complicado. A associação que os representa não tem vínculo com qualquer central sindical. Pode-se argumentar que seu vice-presidente, Sérgio Roque, é filiado ao PC do B (partido da base do governo Lula). Mas também vale lembrar que ele tem pouco poder interno e é muito mais moderado que a presidente, Marilda Pinheiro.

Em conversa com o Estado, Marilda, que se declara apartidária, deixou claro ontem que os delegados pretendem jogar pesado com o governador, para que ele cumpra os acordos feitos na greve de 2008, antes que deixe o governo. Seria mera coincidência, segundo a delegada, o fato dele ser pré-candidato à cadeira de Lula.

O cenário não é novo. Historicamente sindicatos e centrais sempre estiveram atrelados a partidos. Na opinião de um estudioso dessas questões, o cientista político e professor Ricardo Antunes, da Unicamp, deve-se tomar cuidado, na análise dos fatos, para não superestimar o papel partidário e deixar no escuro os motivos básicos, as reivindicações que mobilizam as categorias.

Segundo o professor, se a CUT decidir promover greves exclusivamente a favor da candidatura Rousseff e contra Serra não vai ter sucesso. Em outras palavras, não se pode deixar de avaliar também qual é o nível real de descontentamento entre os funcionários públicos do Estado. Lula enfrentou greves de professores universitários durante quase todo o seu primeiro mandato - até promover aumentos reais nos salários.

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