Interino usa cofre do DF para agrado a servidores

Interino usa cofre do DF para agrado a servidores

Candidato à sucessão de Arruda, Lima tenta aprovar reajuste salarial em 72 horas

Leandro Cólon e Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

A suspeita de corrupção que paira sobre o Poder Executivo do Distrito Federal há quatro meses não inibiu o governador em exercício, deputado Wilson Lima (PR), a abrir o cofre para aumentar os salários dos servidores públicos.

Nem que seja preciso votar na semana que vem, em 72 horas - em três comissões e no plenário da Câmara -, um projeto de reajuste que atende a 20 carreiras para beneficiar 30 mil funcionários. A correria é porque a lei proíbe aumento salarial no período de seis meses que antecede as eleições de outubro.

Candidato a governador efetivo nas eleições indiretas de 17 de abril - para substituir o cassado José Roberto Arruda, envolvido no "mensalão do DEM" -, Wilson Lima distribuiu, em 45 dias, um pacote de bondades aos servidores. No dia 18 passado, antes de entregar à Câmara a proposta sobre as 20 carreiras, Lima deu a boa notícia a outros três setores.

Concedeu reajuste a professores (10%), dentistas (18%), e funcionários do Detran-DF (6%), aumentando em R$ 227 milhões a folha de pagamento do Executivo do DF.

E não parou por aí. Um dia depois, enviou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um texto para aumentar em 33% os salários dos policiais militares, civis e bombeiros. Os PMs do DF já são os mais bem pagos do País. Um coronel de Brasília chega a ganhar, no mínimo, R$ 15,4 mil mensais, enquanto a mesma função em Pernambuco é de R$ 6,3 mil, segundo dados da Confederação Nacional de Municípios. O aumento para essas três carreiras passa pelo governo federal porque os recursos são oriundos do Fundo Constitucional do DF. Se for aprovado, o reajuste vai gerar um impacto de R$ 1,1, bilhão até 2012.

Afago indireto. O movimento de Wilson Lima não garante votos dos servidores na eleição indireta porque só os deputados poderão votar. Mas aumenta, a favor de sua candidatura, a pressão por parte de um grupo considerável de eleitores do DF.

Os servidores públicos são uma classe com forte influência em Brasília. Diante desse cenário, a Câmara terá que aprovar a toque de caixa o projeto que aumenta os salários, que tem entre os beneficiados a carreira de auditor tributário, especialista em saúde, e as do que trabalham em atividades culturais, trânsito, música e meio ambiente.

Toda essa pressa é justificada porque o texto foi entregue pelo governador somente na última quarta-feira e precisa ser aprovado até o último dia de março. Ou seja, os deputados distritais terão 72 horas, entre segunda e quarta, para aprová-lo.

O regimento da Casa exige que três comissões analisem o tema antes de enviá-lo ao plenário. O presidente da Câmara Distrital, Cabo Patrício (PT), garante que a votação será concluída, provavelmente, na terça-feira. "Passar por três comissões no mesmo dia não quer dizer nada. O que importa é que o texto seja analisado pelos assessores de todos os deputados", justifica Cabo Patrício.

Ainda sobra. Em documento enviado à Câmara, Wilson Lima tentou explicar os motivos do pacotão de aumentos. "Busca o aperfeiçoamento contínuo da prestação de serviços públicos oferecidos pelo governo distrital pela melhoria das condições de trabalho, da qualidade de vida e por meio de uma remuneração digna, condizente com a natureza e a complexidade do trabalho desempenhado por cada servidor", afirmou.

O secretário de Fazenda do Distrito Federal, André Clemente, afirmou que há recursos para bancar esses aumentos. "Esses eram reajustes programados", disse. Segundo ele, ainda vão sobrar R$ 227 milhões que poderiam, mas não serão usados em salários por causa da legislação eleitoral.

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