Internet espalha uso de sálvia alucinógena

Vídeos mostram ?viagens? de usuários da erva, usada tradicionalmente por xamãs indígenas mexicanos

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2008 | 00h00

Não demorou mais do que dez segundos para que André abrisse um largo sorriso e começasse a ver tudo rodar. O chão se mexia, a mesa andava para os lados como se fosse um caranguejo. Sentado em uma poltrona, ele enxergou no teto pequenas tortas de morango com bracinhos e perninhas. E silhuetas de seres que pareciam alienígenas. Da mesma maneira que sua realidade foi transformada para uma cena digna de uma música surreal dos Beatles, não demorou mais do que cinco minutos para que André tombasse no chão, ainda com o sorriso no rosto, mas sem entender direito o que havia se passado dentro do seu quarto. Faz dois meses que André, designer gráfico de 27 anos, experimentou uma tragada de Salvia divinorum - única entre milhares de espécies da erva do gênero Sálvia que apresenta efeitos psicoativos, considerada a substância mais potente que existe na natureza e vendida legalmente em páginas da internet. Jura que não teve vontade de provar novamente, apesar dos sorrisos e das sensações. "É bem forte, não é nada recreativa, tipo droga de balada", diz. Mas há uma infinidade de jovens do Brasil e de outros países que estão, sim, experimentando, motivados em grande parte por milhares de vídeos e sites que propagam os efeitos alucinógenos da sálvia. "Eu cheguei a ver os vídeos na internet do pessoal fumando sálvia e pirando. Então, eu e meus amigos resolvemos comprar para saber do que se tratava", diz Marcelo, estudante de 22 anos. Há pelo menos 6.500 clipes no site YouTube mostrando usuários de Salvia divinorum, sendo que alguns foram vistos mais de 1 milhão de vezes. "Foi uma tragada para tudo mudar, para que eu me sentisse fora do corpo. Parecia que eu estava viajando no tempo, vi várias coisas. Umas paisagens, uns animais. Uma hora, achei que minha boca tinha caído no chão. Quando me dei conta, já estava de volta, sentado na poltrona da casa do meu amigo, como se nada tivesse acontecido. É até assustador por causa disso, muito intenso e breve." Sim, Marcelo e André falam do mesmo tipo de erva que as pessoas usam para temperar aves, peixes e outras carnes, mas de uma espécie rara e obscura que cresce no México, nas remotas montanhas de Sierra Madre Oriental. A S. divinorum é usada tradicionalmente como medicina sagrada pelos xamãs indígenas que vivem no Estado mexicano de Oaxaca; em náhuatel, antiga língua dos astecas, ela é chamada de pipiltzintzintli, ou "a mais nobre princesa". É como se fosse a ayahuasca ou o Santo Daime, só que os efeitos duram bem menos tempo e podem ser comparados aos estados alucinógenos do LSD. Para os mazatecas, povo indígena de Oaxaca, a S. divinorum oferece numerosas aplicações terapêuticas - os xamãs mascam folhas para entrar em contato com os deuses e infusões são ministradas em cerimônia, usadas para combater depressão, diarréia, dor de cabeça, reumatismo e anemia. Ainda não há registros de problemas de saúde atribuídos ao uso da droga, mas as conseqüências da ação da planta no organismo foram pouco analisadas até o momento. O princípio ativo, salvinorina A, está sendo aos poucos estudado pela indústria farmacêutica no desenvolvimento de remédios para o tratamento da esquizofrenia e dependência química.

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