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Intolerância causou tragédia, diz delegado sobre morte de jovem pelo pai

Depoimentos da mãe de Guilherme Silva Neto e de outros parentes mostram que pai e filho viviam uma relação conflituosa havia ao menos quatro anos

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

16 Novembro 2016 | 17h56

SOROCABA - Intolerância extrema com a divergência de ideias foi a causa da tragédia em que o engenheiro civil Alexandre José da Silva Neto, de 60 anos, matou seu filho único, o estudante de matemática Guilherme Silva Neto, de 20, e em seguida se matou, na terça-feira, 15, em Goiânia, no opinião do delegado Hellyton Carvalho, da Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH). 

Depoimentos informais da mãe da vítima, a delegada aposentada Rosália de Moura Rosa Filho, e de outros parentes, mostram que pai e filho viviam uma relação conflituosa havia ao menos quatro anos, segundo ele.

O delegado disse que, embora não haja outra linha de investigação, o inquérito vai seguir o curso formal, com perícias, depoimentos de familiares e oitiva de testemunhas. "Vamos investigar todas as circunstâncias, descobrir a origem da arma de fogo, e se houve algum tipo de premeditação ou algo que tivesse influenciado esse resultado." Conforme Carvalho, a esposa do engenheiro informou que o marido estava com depressão, mas não vinha se tratando. "Esse fato pode ter contribuído para o desfecho, que não é normal. Em quatro anos trabalhando com homicídios, não tinha me deparado com um caso assim", disse.

Conforme informações já obtidas pela polícia, segundo o delegado, o pai via o filho como uma espécie de revolucionário, que afrontava o poder constituído e pregava a anarquia. "Já temos material mostrando que ele nutria simpatia pelas minorias e movimentos sociais, contestava o atual governo, defendia o voto nulo e, não só participava, como incentivava as ocupações. O pai, até em razão da idade, não admitia os arroubos do filho e isso gerava conflitos. Há relatos de discussões e ameaças que serão apuradas no decorrer do inquérito."

Segundo ele, no dia da tragédia, o filho pretendia acompanhar a desocupação da Universidade Federal de Goiânia (UFG), onde fazia o curso de matemática, e o pai impediu. Depois de uma discussão acirrada, em casa, Guilherme teria assentido em não ir à desocupação. Quando o pai saiu, o estudante avisou a mãe que ia apenas ver a movimentação e saiu a pé, levando uma mochila. O delegado disse que os depoimentos vão confirmar se Alexandre já saiu armado de casa, o que confirmaria a tese de premeditação. 

De acordo com o registro na Polícia Civil, o pai soube que o filho tinha saído e foi atrás, de carro, alcançando o estudante na Praça do Avião, setor do Aeroporto, onde recebeu o primeiro tiro. O filho ainda correu e tentou voltar para casa, na esquina da Avenida República do Líbano com a Rua 25-A, mas o pai o alcançou e fez novos disparos. Em seguida, ele se debruçou sobre o corpo do filho caído, recarregou a arma - uma pistola 6.35 - e atirou contra a própria cabeça. Carvalho ainda foi levado para o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), mas não resistiu. A mãe ouviu os tiros, saiu à rua e viu o filho morto, entrando em choque.

O corpo do estudante foi velado nesta quarta-feira, 16, no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia, e enterrado às 17 horas, num clima de comoção. Durante o velório, a mãe permitiu que um grupo de 25 estudantes da UFG adentrasse o recinto e homenageasse Guilherme. Eles fizeram um círculo em volta do caixão, num abraço simbólico.

Por telefone, um colega que pediu para não ser identificado, descreveu o clima entre os alunos como de "absurda incredulidade". Ele disse que o estudante reclamava com frequência das atitudes do pai, excessivamente controlador. "Ele impedia o Gui de participar das nossas reuniões e viagens, tinha medo de drogas, bebida. Numa das viagens programadas, o Guilherme chegou a pagar pela adesão, mas o pai não o deixou ir. Ele ficou muito revoltado." 

O estudante morto também foi homenageado durante a desocupação de prédios da Regional Goiânia da UFRG, nesta quarta, com a frase pichada num dos muros: "Guilherme eterno. Lutar sempre, desistir jamais".

O corpo do engenheiro foi sepultado no mesmo cemitério, mas sem velório. Consternados pela tragédia, os familiares decidiram fazer o sepultamento assim que o corpo foi liberado pelo Instituto Médico Legal (IML). Um pedido do engenheiro para que fosse sepultado em Brasília, onde estão enterrados seus pais, acabou não sendo atendido.

Acirramento. Em nota divulgada nesta quarta-feira (16), a reitoria da Universidade Federal de Goiás (UFG) lamentou a morte do estudante e afirmou que as ocupações de prédios escolares durante as manifestações estudantis causam o acirramento dos conflitos. O jovem estudava no câmpus de Goiânia, um dos seis que estão ocupados no Estado. "As ocupações, que já se estendem por mais de três semanas, têm provocado o acirramento de posições antagônicas no seio da própria comunidade universitária e gerado tensões e situações de conflito preocupantes, tanto em Goiânia, quanto na Regional Jataí, colocando em risco a integridade física das pessoas", diz a nota.

A instituição informou que vários prédios, inclusive da reitoria, foram desocupados nesta quarta-feira, 16. "Apelamos para os estudantes que ponderassem sobre a gravidade da situação e nos colocamos à disposição para a discussão de pautas específicas", informa a nota. Procurado, o reitor Orlando Amaral informou que já havia se manifestado através da nota.

O Diretório Acadêmico dos Estudantes de Matemática da UFG se manifestou pelas redes sociais e informou que Guilherme Silva Neto era "integrante ativo" do órgão. "Por ser um momento de extrema tristeza, limitamo-nos a oferecer solidariedade à família do estudante, na presente nota, deixando demais posicionamentos para outras oportunidades."

 

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