Introspecção e agressividade estão entre sinais de vítimas de violência sexual

Especialistas recomendam que pais sempre conversem com filhos e, se forem vítimas, ajudem com que eles não se sintam culpados; denúncia deve ser feita

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2016 | 17h25

SÃO PAULO - Após ser vítima de violência sexual, a criança ou o adolescente pode apresentar alguns sinais físicos e comportamentais que devem ser observados pelos pais, que devem estar atentos para oferecer apoio. Tristeza, queda no rendimento escolar, medo de alguma pessoa sem motivo aparente, dificuldade para sentar ou andar e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) estão entre problemas que podem indicar que algum tipo de ato de natureza sexual pode ter ocorrido.

A situação é delicada e muitas vezes difícil de ser identificada, pois, com exceção das DSTs, os outros sinais podem estar presentes em uma série de outros problemas.

Desde a semana passada, o País acompanha o caso da adolescente estuprada no Rio. A polícia investiga a participação de mais de 30 homens no ato, que veio à tona após a divulgação de vídeos nas redes sociais, dias após o crime.

"Os pais podem ficar atentos a lesões aparentes na região genital, infecções urinárias de repetição, ganho ou perda de peso. Os sinais psicológicos vão depender da personalidade e de como a vítima vai vivenciar o trauma. Em alguns casos, a criança pode processar por meio de um desenho, de simulação com bonecos. São linguagens não-verbais que podem mostrar o que está acontecendo", diz Adiel Rios, médico psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (USP).

Rios explica que os pais devem sempre conversar com os filhos para que eles compreendam que o abuso sexual é errado, não deve acontecer e que, se houver, eles não são culpados. "Sexo e sexualidade devem ser debatidos desde cedo. Os pais devem conversar sobre o que é o sexo consentido, as escolas devem ter educação sexual. Isso associado à sensibilização social para impedir que isso aconteça, porque pessoas estão sendo abusadas. Temos índices alarmantes de violência sexual."

No caso dos adolescentes, como muitos têm medo ou vergonha de falar sobre o assunto, os pais também devem observar alterações no comportamento. "No jovem, a principal manifestação pode ser a alteração do comportamento com agressividade ou distanciamento e isolamento, além do abuso de álcool e drogas. Mas a maior parte ainda processa com o silêncio, com medo do que a sociedade vai falar, com medo de ser culpabilizado. Por isso, os pais devem estar bastante abertos, acolhedores, escutar sem julgar, oferecer amparo e, caso seja identificado o agressor, ele deve ser responsabilizado."

Denúncia. Ao saber que o filho foi vítima de um estupro, os pais devem buscar atendimento em um hospital, de preferência com suporte para vítimas de agressão sexual. "No hospital, a vítima vai receber atendimento médico. Se estiver ferida, vai receber atendimento para as lesões corporais, coquetel antiaids e atendimento psicológico. Vai colher material para o exame de esperma, porque a identificação do agressor pode ser feita," afirma Luiza Nagib Eluf, advogada e consultora da Comissão da Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil seccional São Paulo (OAB-SP). A advogada diz que, no caso das vítimas do sexo feminino, também é oferecida a pílula do dia seguinte.

Luiza explica que a vítima tem um prazo de seis meses para buscar uma delegacia e fazer a queixa. "Quando a vítima estiver se sentindo melhor, deve ir à delegacia. Uma coisa importante é não ter medo de contar, porque a culpa é do agressor. O estupro é um crime bárbaro e hediondo na nossa lei. As vítimas têm de ter todo o apoio policial e judicial para a punição dos agressores."

Como ajudar a criança ou o adolescente em caso de estupro

 - Converse

O diálogo vai ajudar a vítima a falar sobre o crime e a entender o que ocorreu. A conversa também permite que a vítima entenda que não está sozinha e recebe o apoio da família

- Não culpe

É comum que as vítimas de abuso sexual se sintam envergonhadas e culpadas, mas não permita que a criança ou o adolescente tenha esse sentimento. Explique que a culpa é do agressor e que ele deve ser punido

- Atendimento médico

Assim que souber que a criança foi vítima de estupro, busque atendimento médico para tratar as lesões e receber a medicação necessária

- Denuncie

O agressor deve ser denunciado. Não deixe de fornecer informações para a polícia, pois elas serão fundamentais para a investigação e para a punição do autor do crime

- Tratamento

A vítima deve receber acompanhamento psicológico para enfrentar o trauma e ter uma vida saudável. Sem o tratamento, eles podem desenvolver doenças como a depressão e o estresse pós-traumático

Fontes: Adiel Rios, médico psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (USP); Luiza Nagib Eluf, advogada e consultora da Comissão da Mulher da Ordem dos Advogados do Brasil seccional São Paulo (OAB-SP)

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