Invasão de favela pode estar ligada à morte de milionário

A explosão da violência na favela Vila Joaniza, na Ilha do Governador (zona norte), onde quatro pessoas morreram no final de semana, pode estar ligada à prisão de Anderson Souza, ex-PM suspeito de ter assassinado o milionário da Mega Sena Renné Senna. Souza seria integrante da milícia que dominaria a favela desde dezembro. Com sua decisão de se entregar à polícia, na última sexta, traficantes estariam tentando retomar o controle local. O delegado Roberto Cardoso, que investiga a morte de Renné Senna, disse que a polícia trabalha com a conexão entre a invasão e a prisão de Souza. "A prisão dele pode ter desencadeado esses fatos", afirmou Cardoso. No sábado, cerca de 30 traficantes, que teriam como líder Marcelo Soares de Medeiros, o Marcelo PQD, foragido do sistema penitenciário, invadiram a Vila Joaniza. Comissão na Assembléia O aparecimento de milícias em confrontos armados, como o ocorrido na Vila Joaniza e na Cidade Alta, levou o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), militante da área de direitos humanos, a recolher nesta segunda assinaturas na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj) para a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre o tema. Segundo o parlamentar, a comissão seria um espaço neutro, fora do ambiente das corregedorias das polícias, para ouvir as comunidades submetidas aos milicianos. "As milícias representam uma novidade que têm denúncias de envolvimento de agentes públicos. Isso é o que tem de ser investigado. Senão vira uma alternativa à polícia e é o que tem levado às mortes. Não podemos permitir um Estado paralelo", disse Freixo. Historiador, ele foi pesquisador sobre violência da ONG Justiça Global até o ano passado. Milícias com suporte da PM O deputado diz ter informações de que as milícias já alcançam mais de 90 favelas no Rio, a maioria delas na zona oeste. Ele também tem denúncias de que batalhões da PM em algumas regiões da cidade dão suporte aos grupos paramilitares que expulsam traficantes das comunidades para cobrar dos moradores pela suposta proteção. "É possível, são muitos os depoimentos. A melhor maneira de saber se procede ou não é ter investigação. Se o Estado tem condições de combater o tráfico, e está mostrando que tem, tem que expulsar o tráfico e garantir a lei. Não a substituição por um grupo menos ruim." Amedrontados, as comunidades subjugadas às milícias mantêm o mesmo silêncio que os leva a não criticar traficantes de drogas. Um morador da Cidade Alta quebrou a regra, ao declarar, anonimamente, como se deu o seqüestro do motoboy Fábio Fernandes da Rocha, 29 anos, na comunidade - que, apesar das evidências em contrário, não teria a ver com a milícia, na versão da polícia (assim como a morte do soldado da PM Moisés da Silva Coelho, de 26 anos). "Eles chegaram, abordaram ele e falaram que era a milícia, que tinha acabado o tráfico. Estavam com roupa do batalhão, coletes de polícia, tinha uns com toucas-ninja, outros sem", declarou o morador à Rede Globo. "Eles ameaçam, mandam abrir bolsa, pergunta se é morador, para onde vai. Barbarizam." O surgimento de grupos paramilitares que se ocupam da segurança de comunidades carentes no Rio não é fenômeno novo. Sua existência, no entanto, só agora é reconhecida por autoridades do Rio - o último secretário de Segurança, o delegado Roberto Precioso, chegou a dizer que o assunto era uma "bobagem". A origem das milícias são as chamadas "polícias mineiras", que atuam há décadas na zona oeste e na Baixada Fluminense, criando uma espécie de lei paralela. Foi a maneira que policiais militares, civis e bombeiros encontraram para proteger as comunidades em que vivem do tráfico de drogas e dos crimes contra o patrimônio. Os desvios são castigados, em geral, com o assassinato. Em 2005, no entanto, um fenômeno novo começou a ser identificado. Com base em relatórios de órgãos municipais na zona oeste, o prefeito Cesar Maia (PFL) apontou uma espécie de "exportação" das milícias. Assim como os traficantes migram de uma favela para a outra, os grupos paramilitares passaram a disputar com eles o espaço nas comunidades vizinhas. Depois de tomar o lugar dos traficantes, os milicianos fecham as bocas de fumo; por outro lado, cobram pela segurança e serviços ilícitos, como ligações clandestinas de TV a cabo.

Agencia Estado,

05 Fevereiro 2007 | 20h03

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