Sérgio Moraes/Ascom/AGU
Sérgio Moraes/Ascom/AGU

Invasores ocupam base de terra indígena no Pará; Ministério da Justiça vai enviar reforço

Base da Funai foi cercada nesta quinta-feira, 19, por um grupo de invasores na terra indígena Apyterewa, localizada às margens do rio Xingu, no Pará

André Borges, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 13h25
Atualizado 19 de novembro de 2020 | 21h13

BRASÍLIA - Uma base da Fundação Nacional do Índio (Funai) foi cercada nesta quinta-feira, 19, por um grupo de invasores na terra indígena Apyterewa, localizada às margens do rio Xingu, no Pará. A região é historicamente marcada pela presença de madeireiros, que invadem a terra indígena para extrair madeira.

Há cerca de 40 agentes do Ibama e Força Nacional na região. A equipe faz uma operação na área há mais de uma semana, para combate de desmatamento. Essa operação está em andamento. A tomada da base pelos invasores é uma reação ao trabalho desses agentes.

O Estadão apurou que o Ministério da Justiça já acompanha o caso e que, nesta sexta-feira, 20, deve enviar cerca de 40 homens da Força Nacional ao local para reforçar o trabalho.

A reportagem obteve informações de agentes que estão na operação. Os invasores bloquearam uma estrada, impedindo a passagem dos servidores. Para evitar conflito, um grupo do Ibama permanece na floresta e não voltou à base. Há um clima de tensão no local, por isso será enviado reforço policial.

Questionado sobre a situação assunto, o Ibama confirmou o envio de mais equipes, com apoio da Força Nacional. A Funai informou que não comentaria o assunto, porque se trata de uma operação do Ibama.

A terra indígena Apyterewa tem 773 mil hectares e uma população de 729 indígenas, segundo informações do Instituto Socioambiental (ISA). As terras indígenas são as áreas mais cobiçadas pelo mercado ilegal de madeira porque é dentro dessas áreas que estão as árvores mais nobres, justamente por serem terras demarcadas e conservarem a natureza.

O mesmo acontece em unidades de conservação, florestas protegidas que são mantidas pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio).

​Vídeos da invasão circulam na internet

Vídeos gravados pelo grupo de invasores que circulam pela internet mostram os homens queimando uma ponte e bloqueado a estrada, para impedir a passagem dos agentes do Ibama, que atuam armados nessas operações, com poder de polícia. 

Há mulheres e crianças entre os invasores. Eles afirmam ser trabalhadores e pedem que o Ibama deixe o local. Em um dos vídeos, uma das pessoas afirma ao servidores do Ibama: “Vocês estão trabalhando para o Lula ainda? O Lula já foi, rapaz. O Lula já foi. Nós não vamos recuar não. Nós somos trabalhadores.”

A atuação de agentes do Ibama e ICMBio nas florestas é tema recorrente de críticas do presidente Jair Bolsonaro, que já fez diversas reclamações sobre apreensões e destruição de equipamentos usados em roubo de madeira e garimpo ilegal.

Em abril, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, determinaram a exoneração de uma equipe de agentes do Ibama após a queima de máquinas de criminosos que atuavam, justamente, na terra indígena Apyterewa e na terra vizinha Trincheira Bacajá. Naquela ocasião, foram lavrados, conforme ofício obtido pela reportagem, 26 autos de infração, 24 apreensões e 17 termos de destruição de máquinas, entre outros itens. 

As imagens dessa operação, com tratores e máquinas de grande porte incendiadas no meio da floresta, foram exibidas pela imprensa nacional, o que enfureceu Bolsonaro, apesar desta ação dos fiscais ser prevista em lei há anos. O presidente condenou a ação e cobrou respostas. Dias depois, o Salles exonerou o diretor de proteção ambiental do Ibama, Olivaldi Alves Borges Azevedo, além dos coordenadores de fiscalização e operações Renê Oliveira e Hugo Loss.

O próprio governo, no entanto, usaria os resultados dessa operação meses depois, para turbinar sua investida militar na floresta, conforme revelou o Estadão. A operação militar Verde Brasil 2, liderada pelo vice-presidente Hamilton Mourão, começou só no mês seguinte. Iniciada em 11 de maio pelo Conselho da Amazônia, a operação incluiu em seu balanço de resultados as apreensões, multas e destruições de máquinas que o Ibama havia feito na megaoperação no Pará, entre os dias 4 e 16 de abril.

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