Francesco Ammendola/AFP
Francesco Ammendola/AFP

Inventário do papado de Francisco, filme mostra humanismo do argentino com gays e excluídos

No filme, papa defende união entre pessoas do mesmo sexo; produção não aprofunda oposição da ala mais conservadora da Igreja ao pontífice

Lucas Ferraz, especial para o Estadão

22 de outubro de 2020 | 16h30

ROMA - Além de conter uma inédita defesa da união civil de pessoas do mesmo sexo, o documentário sobre o papa Francisco lançado nesta semana pode ser visto como um grande inventário sobre os principais temas da agenda de Jorge Mario Bergoglio. O Estadão assistiu ao filme, que têm o título de “Francesco” e foi dirigido por Evgeny Afineevsky, um russo naturalizado americano.

A produção faz um sobrevoo nas principais questões ocupadas pelo Vaticano nos últimos setes anos: da crise ambiental às desigualdades econômicas e sociais, passando pelos abusos sexuais, a crise da imigração, a discussão sobre gênero, a atuação do papa em conflitos como na Síria e sua relação com outras religiões. Ainda que demasiadamente simpático, trata-se de um documento histórico sobre uma das principais lideranças do nosso tempo.

O ponto de partida é a pandemia do coronavírus, com imagens de um solitário Francisco rezando numa deserta Praça de São Pedro, em Roma, logo quando o vírus tornou-se um fenômeno global. Mas o ponto forte do documentário, fazendo justiça à repercussão dos últimos dias, é a histórica abertura do pontífice à comunidade LGBT – Francisco é o primeiro papa reinante a fazer tal gesto. A frase dita por ele a Afineevsky (“os homossexuais são filhos de Deus e têm o direito a uma família”) é acompanhada por outras cenas e declarações que reforçam essa postura.  

Juan Carlos Cruz, chileno abusado sexualmente por um padre de seu país, conta o que ouviu do Santo Padre no encontro que teve com ele no Vaticano: “Juan Carlos, você deve entender que Deus te criou gay. Deus te ama assim como você é”. O pontífice também se desculpou pelos abusos, acobertados pelo clero do Chile. 

Outro exemplo é o de um homem que entrega uma carta a Francisco relatando um drama familiar: trata-se de um casal gay com três filhos. Ao papa, ele descreve o temor de levar os filhos à igreja e pergunta ao argentino se isso seria positivo. Três dias depois, Francisco o telefona, encorajando-o a ser transparente e levar as crianças à igreja. 

Bergoglio defende a união civil de pessoas do mesmo sexo desde os tempos em que era arcebispo de Buenos Aires, o que ele reforça em entrevista ao diretor. O que ele é contra, opinião expressa ainda na Argentina e repetida depois em Roma, é em relação ao casamento gay – a união celebrada em uma cerimônia religiosa.  

Evgeny Afineevsky disse a jornalistas nesta semana que, como gay, a questão mais importante da declaração do papa é “que ele está nos ensinando a parar de rotular e enquadrar as pessoas, e permitir que todo ser humano seja igual”. 

Sem entrar nas contradições de Francisco e na forte oposição interna da ala conservadora, o documentário passa por aspectos da vida pessoal de Bergoglio (como a família imigrante que trocou a Itália pela Argentina) e toca ainda na sua suposta cumplicidade com a última ditadura argentina (1976-83), tema que ainda gera controvérsia no país. 

Estela de Carlotto, fundadora das Avós da Praça de Maio, faz uma autocrítica a respeito: “Me arrependo das alegações que fiz. Hoje sabemos o que fez Bergoglio. Ele, em silêncio, ajudou muita gente a se salvar”. 

O documentário de Afineevsky, ainda que indiretamente, evidencia o quão profissional é o aparato de comunicação que opera ao redor de Francisco. Além de tuítes do Santo Padre, o filme usa várias imagens produzidas pelo Vaticano nos últimos sete anos – como se vê, dignas de cinema. 

Quando sobem os créditos, após quase duas horas de documentário, um agradecimento especial é dirigido ao diretor do setor de comunicação da Santa Sé.

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