Marcelo Goncalves/Sigmapress
Marcelo Goncalves/Sigmapress

Investigação aponta ligações entre quadrilhas por trás de megarroubos

Com digitais e exames de DNA, polícia tem conseguido estabelecer ligações entre suspeitos de mega-ataques e solucionar casos. Após repetição de assaltos em aeroportos, transportadoras agora querem acesso a armas melhores para repelir criminosos

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Investigações policiais em diferentes Estados mostram que, por trás de megarroubos cometidos recentemente no País, estão criminosos especializados e reincidentes. A polícia tem se beneficiado do avanço das técnicas de investigação com auxílio de exames de DNA e bancos de impressões digitais para, com mais frequência, conseguir fazer ligações entre os casos e entender melhor a dinâmica dos grupos. Essa compreensão ajuda decisivamente no esclarecimento dos crimes e na punição dos responsáveis, contam investigadores. 

Foi o uso dessas ferramentas que permitiu que a polícia chegasse a conexões, por exemplo, entre suspeitos de três grandes roubos cometidos no ano passado: o roubo de quase R$ 10 milhões no aeroporto de Blumenau, considerado o maior da história de Santa Catarina, o roubo de 770 quilos de ouro em Guarulhos, com valor estimado em R$ 117 milhões, e a tentativa de assalto no aeroporto de Viracopos, que terminou com três suspeitos mortos

Os casos tiveram modo de atuação semelhante: invasão de aeroportos para roubo de carregamentos valiosos que seriam embarcados em aeronaves, em duas das três vezes com auxílio de falsas viaturas e, em duas das três vezes, com uso de ambulância e caminhão de lixo na fuga. Mais do que o modo de agir, a polícia acredita que suspeitos compartilham um passado de empreitadas criminosas em conjunto.

É o caso de Marcelo Ferraz da Silva, o Capim, e Anderson Struziatto dos Santos. Capim foi preso na investigação do roubo do ouro em agosto de 2019, quando a polícia finalmente conseguiu coletar seu DNA e confrontar com vestígios encontrados em cenas de outros crimes. O material genético deu match com vestígios achados na cena do ataque a carros-forte na Rodovia dos Tamoios, em 2017. Lá, já havia sido encontrada a digital de Struziatto.

“A constatação de que há conexão entre os casos é física e contextual. Na medida que vamos investigando, os nomes vão se cruzando, são indivíduos que participam de um, dois, três casos iguais”, explica o delegado Pedro Ivo Corrêa, do Departamento de Investigações Criminais (Deic), da Polícia Civil de São Paulo. “As provas periciais, como DNA e digital, têm fundamental importância. Em casos como esse, os criminosos não têm rosto, estão com touca, luva, máscaras. Não há testemunhas.”

Struziatto, um paulista de 31 anos, é suspeito reincidente em casos marcados pela violência. Uma busca policial em sua casa no ano passado coletou do seu sapato o DNA que a perícia precisava para confrontar com vestígios de outros crimes. Deu match com o material genético de uma touca ninja deixada para trás em um carro roubado usado no assalto à Prosegur em Santos, em abril de 2016, crime pelo qual agora responde na Justiça. Dois policiais foram mortos durante o assalto.

“O denunciado integra organização criminosa que emprega extrema violência. Ataques semelhantes já foram realizados no Estado de São Paulo após o crime tratado nesta denúncia. É preciso buscar a garantia da ordem retirando das ruas agentes com tal perfil violento”, escreveu, no documento apresentado à Justiça em junho de 2019, o promotor Rogério Pereira da Luz Ferreira, de Santos. Struziatto foi preso em Caruaru, Pernambuco, em novembro do ano passado, e foi transferido para São Paulo.

Em breve, ele deverá responder também pelo assalto ao aeroporto de Blumenau, onde passou a figurar como suspeito. A polícia acredita que ele e comparsas entraram no local, em março de 2019, munidos de uma metralhadora .50, além de fuzis AK-47 e abriram fogo contra o carro-forte que abasteceria um avião. Os tiros furaram a blindagem do carro e dois vigilantes ficaram feridos. Um disparo também quebrou a porta de vidro de uma empresa próxima e matou a funcionária Edivânia Oliveira, de 22 anos.

“Na Região Sul, não havia nenhum precedente para o que aconteceu, não somente em relação ao valor roubado, mas também pelo grau da violência empregada. Por conta disso, já suspeitávamos que era gente de fora”, diz o delegado Anselmo Cruz, da Diretoria de Investigações Criminais de Santa Catarina. Cruz passou a trabalhar em conjunto com o Deic de São Paulo para chegar a suspeitos de terem realizado o ataque. A primeira parte da investigação indiciou oito suspeitos e a apuração continua ocorrendo para identificação de outros envolvidos.

O bando, que fugiu com R$ 9,8 milhões de Blumenau, também era composto por Davi Marques dos Santos. Foi uma prova pericial que o ligou ao crime, mas ele ainda não foi localizado. Resgatado em 2014 de uma penitenciária em Franco da Rocha, Santos é considerado um dos criminosos mais perigosos do País e foi incluído recentemente na lista de mais procurados elaborada pelo Ministério da Justiça, que o tem como suspeito também do mega-ataque à Prosegur de Ciudad del Este, no Paraguai, em 2017  - foram roubados de lá US$ 40 milhões. 

A lista de crimes imputada a Davi ainda inclui roubos a bancos e lotéricas no interior de Pernambuco e Bahia. A Operação Novo Cangaço, de 2011, considerava ele e o irmão, Daniel Marques dos Santos, suspeitos de uma série de roubos na região. Ambos foram processados e condenados no ano seguinte. A constatação, em outubro de 2019, que Daniel era um dos três mortos pela polícia após confronto decorrente de uma tentativa de assalto no aeroporto de Viracopos, em Campinas, trouxe a certeza que a família não se afastou da vida criminosa.

A reportagem não conseguiu contatar os advogados de Struziatto e Silva e não identificou o responsável pela defesa de Santos. A Polícia Federal de São Paulo não respondeu questionamentos sobre o andamento da investigação relativa ao assalto em Viracopos. 

Grupos não têm mais chefe supremo, diz delegado

As investigações mostram as conexões, mas isso não significa que o grupo se organize como quadrilha única, com estrutura hierárquica definida e atuação sempre em conjunto, ponderam os policiais. Para Corrêa, os criminosos adaptaram seu modo de atuação.  “O conceito de organização criminosa está mudando, está evoluindo. Não é mais quadrilha com ordens de um chefe supremo, enquanto os outros obedecem. As organizações se unem nas empreitadas a partir da divisão de tarefas e atuam com comunicação e constante movimento”, explica.

Os roubos obedecem o planejamento definido a partir da obtenção de uma informação privilegiada, por exemplo. O plano inclui ainda uma fase logística, de obtenção de carros e casas, e a preparação para o roubo em si. “Há o ‘dono do serviço’ e ele monta o time dele para atuar naquele crime. Não são pessoas que saem roubando toda hora. A partir da informação privilegiada, passam a operar para preparar determinado roubo”, diz Correa. Para ele, a polícia vem conseguindo acompanhar a evolução dos grupos e hoje consegue dar respostas por meio da identificação, indiciamento e responsabilização judicial.

O cientista político e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Guaracy Mingardi vê a capacidade de esses grupos multiplicarem conhecimento criminoso entre eles. “Nem todo mundo está em todos os casos. Depois do primeiro, no próximo roubo outros já sabem como se portar e o que fazer. Eles aprenderam e vão dar sequência e outros vão continuar aprendendo. Eles repetem até a polícia identificar e combater a tática. Aí, iniciam uma nova.”

Para uma maior efetividade no combate aos grupos, Mingardi pede melhoria no compartilhamento de informações. “As polícias muitas vezes não conversam e não há uma estrutura institucional para compartilhar informações. É preciso estabelecer um canal direto entre os Estados para que, com velocidade, policiais acessem informações precisas quando necessário. Ainda falta essa troca de uma forma mais sistemática.”

Transportadoras querem permissão para armas melhores

Alvo prioritário dos megarroubos, as transportadoras de valores querem autorização da Polícia Federal para usar mais e melhores armas de fogo na defesa dos seus funcionários e das cargas. Ao longo dos últimos dez anos, os ataques escalaram em violência e com frequência contam com dezenas de criminosos armados com fuzis, metralhadoras e explosivos e dispostos a matar e destruir estruturas em busca de dinheiro.

Contra esse aparato de guerra, as transportadoras são autorizadas a usar espingardas calibre 12 e revólveres calibre 38, armas consideradas obsoletas, diz o diretor-presidente da Associação Brasileira de Transporte de Valores, Ruben Schechter. Para mudar essa realidade e adequar o armamento a um patamar moderno, Schechter diz que tem procurado órgãos de segurança e o Ministério da Justiça em busca da revisão das restrições.

“Chegamos a uma situação onde um civil comum pode comprar armamento muito mais potente do que os que vigilantes têm à disposição para guarda de valores”, diz o diretor. Enquanto não são autorizadas a se armar melhor, as empresas, conta ele, investem em tecnologia de proteção e prevenção. “Essa tecnologia pode ajudar a evitar um sinistro antes que ele ocorra, mas a partir do momento que há uma ação, isso não serve para impedir que o roubo aconteça”, acrescenta.

Sobre os casos em aeroportos, que têm se repetido, Schechter diz que as mudanças promovidas pelas concessionárias e pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) não foram suficientes. Ele cobra mudanças que permitam que a carga valiosa seja acompanhada mais de perto pelos vigilantes em todos os estágios do embarque. “Infelizmente, os aeroportos não tem uma previsão de tratamento diferenciado para carga valiosa e ela é armazenada no mesmo local onde estão cargas de vestuário, sapatos”, diz.

Schechter diz que a recorrência dos casos tem efeito sobre o trânsito de dinheiro entrando e saindo do País, o que pode culminar com consequências para a balança comercial. “Há uma dificuldade para exportar papel moeda para bancos do exterior. E os clientes estrangeiros estão muito receosos de trazer dinheiro de fora para dentro. É algo que pode afetar toda a economia.”

Em nota, a Polícia Federal diz que obedece os termos da Lei 7.102/1983, que dispõe sobre os serviços das empresas particulares de vigilância. O artigo 22 confirma que é permitido a esses funcionários o uso de revólver calibre 32 ou 38, de espingardas calibre 12, 16 ou 20, além de cassetetes de madeira ou de borracha.

“Sendo assim, a Polícia Federal não pode normatizar contrariamente à lei para permitir a utilização de outros calibres de armas”, informa a PF. O órgão acrescenta que tramita no Congresso projeto que atribui à Polícia Federal a definição dos calibres a serem utilizados nas atividades de segurança privada.

Programa prevê fiscalização constante, diz Anac

Em nota, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) diz que os aeroportos brasileiros seguem normas baseadas em regulamentos internacionais. No Brasil, destaca, existe o Programa de Segurança contra Atos de Interferência Ilícita, “que prevê ações de fiscalização constantes nos aeroportos para fins de garantir a segurança da aviação civil”.

“A Agência trabalha com conceitos preventivos para mitigar riscos, obtidos por meio de ações de vigilância continuada e de monitoramento das operações. As fiscalizações ocorrem de forma programada, não programada e a partir de denúncias, e envolvem inspeções presenciais, auditorias, monitoramento de reclamações, recebimento de informações e dados de diversos canais que demonstram o cumprimento das regras da Agência, entre outras atividades que, somadas, garantem o monitoramento abrangente e efetivo do cumprimento das normas pelos operadores aeroportuários.”

Depois dos roubos, a agência diz que tem acompanhado as medidas tomadas pelos aeroportos. “A Anac não torna público detalhes desta comunicação, das ações e medidas feitas pelos aeroportos ou das recomendações comunicadas pela Agência, porquê, por questões de segurança, os procedimentos são extremamente sigilosos.”

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