Investigação é tida como acima de qualquer suspeita

Credibilidade do BEA é incontestável na Europa apesar de ser mantido pela França, acionista da Air France

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

08 de junho de 2009 | 00h00

O Escritório de Investigação e Análise para a Aviação Civil (BEA), um órgão financiado pelo governo francês, é o responsável por apurar as causas de um acidente envolvendo uma companhia aérea francesa, a Air France, e um fabricante de aviões francês, a Airbus. Mais: o Estado francês é acionista das duas empresas. O coquetel levanta suspeitas no Brasil, mas não é questionado na Europa. Veja também: Vídeo: Operação de resgate Ouça as declarações da noite deste sábado Ouça a coletiva da manhã deste sábado  Todas as notícias sobre o Voo 447Especial: Os desaparecidos do voo 447 Especial: Passo a passo do voo 447 Air France divulga lista de brasileiros no Voo 447 Galeria de fotos: buscas do Voo 447 Galeria de fotos: homenagem às vítimas Blog: histórias de quem quase embarcou Conheça o Airbus A330 desaparecido no trajeto Rio-Paris   Cronologia das tragédias da aviação brasileira Cronologia dos piores acidentes aéreos dos últimos dez anos TV Estadão: Especialista fala sobre o acidenteDestroços e óleo recolhidos não são do Airbus, diz Aeronáutica Sem informação sobre Voo 447, França cogita até terrorismo  Propriedade do grupo franco-alemão EADS, a Airbus é detida em 25% pela holding Sociedade de Gestão de Participações Aeronáuticas (Sogeade). A empresa é formada pelo grupo Lagardère, com 40% das ações, e pelo Estado francês, que detém 60% dos títulos. Também a Air France, um verdadeiro símbolo nacional, tem como acionista o Estado francês, dono de 17,8% das ações. O somatório de dúvidas poderia bater em cheio na credibilidade do BEA, mas na Europa o órgão é visto como acima de qualquer suspeita. O escritório é o organismo oficial responsável pelas investigações de incidentes e acidentes de aviação civil no país e obedece às normas criadas pela Organização de Aviação Civil Internacional, de 1994. Por princípio, embora seja financiado pelo Estado, o BEA é entidade independente das autoridades francesas.Embora seu objetivo seja identificar as causas e aprimorar a segurança de voos, o BEA também pode servir à Justiça, fornecendo informações técnicas que expliquem as responsabilidades. Na França, a autonomia do órgão não é posta em questão pela imprensa. Seus peritos - 60, de seus 120 funcionários - são tidos como as maiores autoridades em acidentes. Um dos mais respeitados é Alain Bouillard, chefe de Investigações do BEA, célebre no meio por ter sido o autor da instrução que impediu que os aviões Concorde, joia da indústria aeronáutica do país, voltassem a voar depois do acidente do voo AF 4590, em 25 de julho de 2000, em Gonesse. A decisão, que vigorou por 18 meses, contrariava interesses bilionários dos fabricantes, a francesa Aérospatiale e a britânica British Aerospace, além da Air France e British Airways, que detinham o modelo. Outra autoridade respeitada é Paul-Louis Arslanian, diretor do escritório e também do organismo europeu de investigação sobre acidentes aéreos. Orgulhoso de seus 24 anos de experiência, 7 no comando do órgão, Arslanian não aceita contestações sobre sua idoneidade nem mesmo admite que se levante dúvidas sobre a lisura sobre o AF 447. "Nós estamos trabalhando. Quando eu digo: ?Temos 24 mensagens, quer dizer que não tenho uma ou duas mensagens a mais no meu bolso?", afirma. "Nós colocamos tudo na mesa, porque se começar a mentir, ninguém acreditará mais em nosso trabalho. E há 24 anos eu venho mantendo os mesmos métodos."

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