Investigado não comprovou origem dos instrumentos

Faria recusou-se a mostrar notas à comissão e ao ?Estado?

Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2009 | 00h00

Os instrumentos adquiridos pelo Teatro Municipal em novembro de 2007, no valor total de R$ 226.779, não tiveram origem comprovada por seu fornecedor, o ex-arquivista do Teatro Leônidas Júnior de Souza Faria. Em 26 de março de 2008, questionado pela Comissão de Apuração Preliminar da Secretaria da Cultura sobre a existência das notas, Faria comprometeu-se a apresentá-las no dia seguinte. Entregou, porém, apenas um bilhete manuscrito, dizendo ter encontrado uma única nota "nos documentos". "Assim que achar (as restantes), lhe envio rapidamente", completou. Os comprovantes, entretanto, jamais foram apresentados.Em entrevista ao Estado, por telefone, o ex-arquivista disse que não mostrou as notas fiscais porque os membros da comissão foram "mal-educados". "Por isso, tomei a decisão de não colaborar com nada", alegou. "Me senti insultado. Nem sabia por que estava lá. Fui pego de surpresa. Cheguei e me derramaram um monte de perguntas, sem me explicar direito. Foram estúpidos, com olhar intimidador, como se eu fosse o pior criminoso do mundo."Depois, em novo contato telefônico, Faria adicionou que não entregou os documentos por causa de "uma chuva" em seu estabelecimento. Ele ainda reafirmou a existência das notas fiscais, mas disse que não poderia apresentá-las à reportagem. Questionado sobre o motivo do sigilo, ele desligou o telefone.HISTÓRICOAntes de se tornar fornecedora de instrumentos eruditos importados ao Teatro Municipal, a microempresa do ex-arquivista Leônidas Júnior de Souza Faria era uma gráfica. Entre 2003 e 2005, produziu banners, folhetos explicativos, diplomas de gratidão, títulos de cidadão paulistano, camisetas e coletes a diversas secretarias municipais e à Câmara Municipal. Em novembro de 2006, mudou o objeto social de sua empresa de "comercio varejista de artigos de papelaria" para "comércio varejista de instrumentos musicais e acessórios". A revenda que importou instrumentos da Alemanha e dos Estados Unidos para o Teatro fica nos fundos de uma residência no bairro do Jaguaré, na zona oeste. A licitação questionada pelo Departamento de Procedimentos Disciplinares (Proced) da Prefeitura e pela 3ª Promotoria de Justiça da Cidadania do Ministério Público Estadual (MPE) é a segunda vencida por Faria no ramo musical - sua empresa já havia fornecido instrumentos (um glockenspiel e um tímpano sinfônico) ao Teatro em agosto de 2007, no valor total de R$ 46.800,00.Faria reclama que, após o início das investigações, vem tendo dificuldades para continuar com seu negócio. "É um mundo muito fechado (o meio musical). Com essa ?fofocaiada? rolando, estou passando por dificuldades financeiras por não conseguir mais vender", afirma. "Depois desse escândalo, todas as portas foram fechadas para mim."

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