Investigadores omitiram dado sobre alarme do voo 447, diz jornal francês

Parentes e sindicato de pilotos criticaram investigação após denúncia; informação era 'prematura', diz BEA

Estadão.com.br, com EFE e Reuters

03 Agosto 2011 | 17h30

PARIS - O jornal francês Les Echos publicou uma matéria que aponta a omissão de detalhes da investigação sobre o acidente com o AF 447 no terceiro relatório do Escritório de Investigações e Análises para a Aviação Civil (BEA), divulgado na última sexta-feira. Segundo a publicação, os investigadores retiraram do documento a parte que explicava o comportamento do alarme de estol, que foi acionado diversas vezes no incidente antes da queda, e questionava, em "longos parágrafos", o funcionamento dele.

 

O texto fazia referência a possíveis disfunções derivadas do modo de funcionamento do alarme de perca de sustentação (queda). O BEA confirmou que eliminou essa parte porque seus investigadores consideraram que "era prematura neste momento das pesquisas". Por isso, decidiram tirar também uma recomendação relativa ao funcionamento do alarme de queda livre que figurava no relatório preliminar enviado a Air France, ao proprietário do avião, Airbus, e ao sindicato de pilotos três dias antes da divulgação final.

 

No relatório de sexta, os responsáveis do BEA indicaram que os sucessivos acionamentos do alarme não tiveram relação com nenhum problema técnico, mas com as perturbações registradas ao longo do voo. O foco do texto, porém, ficou na conclusão de que os pilotos não estavam preparados para pilotar manualmente o avião em grande altitude, o que os levou a tomar decisões erradas. Além disso, constataram que os pilotos sabiam que o avião estava em queda livre, mas que não fizeram nada para impedi-lo.

 

 

Reação. A informação da retirada desse texto do relatório provocou críticas e protestos entre familiares, o sindicato de pilotos e a Air France. Robert Soulas, presidente da associação de parentes das 228 vítimas do avião, que caiu no Atlântico em junho de 2009, na rota Rio-Paris, considerou a investigação "desacreditada".

 

O sindicato SNPL reagiu contra o terceiro relatório provisório do BEA, que assegurava que os pilotos e copilotos não tinham o treinamento adequado. Com isso, anunciou que está suspendendo sua participação na investigação do acidente. Em um comunicado, o sindicato pediu ao BEA para explicar por que ele "ignorou no relatório oficial a recomendação sobre o alarme de perda de sustentação". "Que outras alterações significativas foram feitas no relatório?", questionou o sindicato.

 

O BEA, contudo, prometeu seguir estudando outras opções, em particular, se os pilotos puderam ter sido prejudicados pelo funcionamento do alarme. Para isso, indicaram, que criaram um grupo de trabalho, composto por especialistas de diversas disciplinas, destinado a entender a reação dos pilotos às diferentes indicações que tiveram, em particular, ao alarme de queda livre, a mais importante e sonoro de todos.

 

Briga. Da análise das caixas-pretas do aparelho se conclui que os pilotos escutaram o alarme, mas sua atuação não foi a adequada para evitar a queda livre do avião. "Este fato deve ser analisado em prioridade pelo grupo de trabalho", indicou nesta quarta-feira o BEA.

 

No cenário da polêmica há um duelo entre Air France e Airbus, ambos processados pela justiça francesa por homicídio involuntário, enquanto a revelação das mudanças no relatório do BEA provocou os familiares das vítimas, que consideraram estar "desacreditados" pela investigação, e do sindicato de pilotos, que anunciou que não colaborará mais nas pesquisas.

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