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Fernando Reinach
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Investigando privadas

Durante a Idade Média, por volta de 1.200 depois do nascimento de Cristo, Lübeck se transformou no centro da Liga Hanseática, uma poderosa organização comercial que controlava o comércio no mar Báltico. 

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2018 | 02h00

Lübeck é um dos portos mais importantes no norte da Alemanha. É considerado pela Unesco patrimônio mundial. Hoje, a cidade tem aproximadamente 250 mil habitantes. O local foi habitado por seres humanos desde o fim da última era glacial, 9.700 anos antes de Cristo, e se tornou um centro de trocas durante o período Neolítico, 3.600 anos antes de Cristo. Durante a Idade Média, por volta de 1.200 depois do nascimento de Cristo, a cidade se transformou no centro da Liga Hanseática, uma poderosa organização comercial que controlava o comércio no mar Báltico. 

Foi exatamente por esse motivo que um grupo de cientistas resolveu estudar os restos de fezes que se acumularam por milênios nas fossas, latrinas e privadas de Lübeck. Como você sabe, é examinando as fezes que os parasitologistas modernos descobrem se nossos filhos, ou mesmo nós mesmos, estamos infectados por vermes intestinais. Esses vermes habitam nosso intestino e produzem ovos muito resistentes, que são liberados nas fezes. Como a forma desses minúsculos ovos são típicas de cada gênero de parasita, misturando as fezes em água e olhando no microscópio é possível saber se a pessoa está infectada por vermes intestinais e identificar o tipo de verme que habita o intestino. Aí basta tomar um vermífugo e tudo está resolvido. Mas os vermífugos são uma invenção recente, e antigamente as pessoas passavam a vida infectadas espalhando vermes por onde fizessem suas necessidades. Basicamente existem duas maneiras que podemos nos infectar com vermes intestinais. Parte das espécies nos contaminam quando ingerimos alimentos feitos com animais que já estavam contaminados, como peixe cru ou carne de vaca. Outros vermes passam diretamente de uma pessoa para a outra de maneira fecal-oral, ou seja, algum resto de fezes com ovos de vermes ficam em nossa mão e acabam em nossa boca. É por isso que é importante lavar as mãos depois de ir ao banheiro, particularmente se você vai cozinhar em seguida.

O que os cientistas imaginaram é que, monitorando os tipos de ovos encontrados em latrinas antigas e comparando as mudanças dos tipos de parasitas presentes na cidade de Lübeck ao longo de séculos, poderiam entender como o tipo de alimentação mudou ao longo do tempo e quando novos tipos de vermes chegaram a cidade de outros locais do mundo. Examinando o esqueleto de uma pessoa não é possível saber se ele veio de Veneza, mas, se as fezes de uma cidade, surgirem amostras de vermes que só existiam em Veneza é razoável supor que pessoas de Veneza visitaram cidade.

Para fazer esses estudos, os cientistas aproveitaram as escavações feitas pela Unesco em Lübeck e coletaram fezes de todas as camadas de resíduos que se acumularam ao longo de séculos nas latrinas da cidade. De posse das fezes, determinaram os parasitas presentes nos resíduos usando um microscópio. Além disso, analisaram o DNA presente nos ovos para identificar a espécie exata do parasita encontrado. Fezes de outros locais, como de comunidades medievais em Bristol, sítios Neolíticos de Zürich e de outros locais da Europa, de diversos períodos de tempo, também foram analisados. Com base nesses dados foi possível reconstituir o que aconteceu em Lübeck ao longo dos séculos.

Até se tornar um centro comercial no final do período neolítico, as fezes de Lübeck eram muito parecidas com as encontradas em cidades do mesmo período. Os vermes presentes eram todos do tipo que infecta as pessoas de maneira fecal-oral. Com o passar dos anos, a diversidade de vermes aumentou, e cepas que foram encontradas em Bristol e outras cidades começaram a aparecer nas privadas mais recentes de Lübeck. Por volta do ano 1.000, surgiram vermes que eram típicos de peixes e que também infectam seres humanos. Como o consumo de peixes na região é muito antigo, essa descoberta sugere que os peixes dos rios e lagos da região foram infectados e passaram a infectar a população. Um primeiro sinal de poluição. Mais tarde, por volta de 1.300, com o florescimento da cidade, os vermes provenientes de peixes diminuíram de quantidade, o que provavelmente tem a ver com a diminuição da quantidade de peixes nos lagos e rios, resultado da pesca excessiva. Nessa época, surgem nas privadas os vermes provenientes de carne vermelha, o que sugere que a proteína animal consumida deixou de ser peixe e passou a ser de mamíferos. Sequenciando o genoma desses vermes foi possível descobrir que eles são típicos de gado e não de porco, indicando que o gado havia entrado na dieta local.

Esta é a primeira vez que cientistas usam exames parasitológicos em larga escala, combinados com o sequenciamento de DNA, para estudar a saúde e os hábitos alimentares de nossos antepassados. Essa nova abordagem é promissora, pois permite descobrir os hábitos alimentares, suas mudanças, e a chegada de novas populações e alimentos em cidades antigas. Até agora, isso só era possível por meio de relatos escritos, e nesses relatos praticamente não existem evidências de doenças crônicas. A maioria dos relatos envolve grandes epidemias, como a peste negra. É uma nova ferramenta, e no futuro vamos ver cada vez mais cientistas dedicados à escavações de privadas e outros locais onde nossos antepassados depositavam seus excrementos. Como se vê em ciência tem trabalho para todos os olfatos.

Mais informação: Molecular archaeoparasitology identifies cultural changes in Medieval Hanseatic trading centre Lübeck. Proc. R Soc B. 285:20180991 2018

* é biólogo (contato: fernando@reinach.com)

 

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