Iogurte natural

José Serra defendeu outro dia para uma plateia de empresários a ideia de que os candidatos devem se apresentar no horário eleitoral de televisão com menos aparato publicitário possível. Sem muita produção, sem maquiagem (lato e estrito sensos) e de preferência sem roteiro prévio.

Dora Kramer, dora.kramer@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

"Chegar lá e falar o que pretende e se possível de improviso, sem nenhum tipo de truque. Com isso, a gente elimina custo e impede que os candidatos sejam vendidos como iogurtes ou o novo pão de centeio", disse o candidato a presidente pelo PSDB no auditório da Associação Comercial, aproveitando justamente um encontro ao qual a candidata Dilma Rousseff havia se recusado a comparecer.

No dia anterior Serra havia conversado com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a respeito da melhor maneira de se apresentar ao País nestes dois meses de intensa exposição três vezes por semana, duas vezes por dia, no horário eleitoral, nas inserções ao longo da programação das emissoras, nos debates e nas entrevistas pré-marcadas.

A conversa foi exatamente aquela. FH sugeriu e Serra concordou que sua melhor arma seria ele mesmo e, portanto, deveria argumentar junto à assessoria de propaganda que tentasse usar esse modelo mais despojado nos programas que começam na semana que vem.

Por uma razão simples e objetiva: em matéria de recursos técnicos e financeiros não haverá como competir com a candidatura oficial. Só a discrepância no volume de arrecadação até agora (algo como o quádruplo para a campanha de Dilma) já corrobora a constatação.

Na hora Serra achou que FH tinha razão, mas disse que não saberia se conseguiria convencer os assessores da área de que o estilo "cara lavada" seria o melhor.

Afinal, é como ele mesmo disse na ocasião: "É chato? É chato, mas a política é chata." E para quem disputa eleição talvez seja conveniente não exagerar na dose.

Laços. Na forma Marina Silva esteve irretocável no Jornal Nacional. Figura linda, português esplêndido, fluência invejável.

No conteúdo claudicou visivelmente. Excedeu-se nas concessões à utopia, mas falhou mesmo no contraste entre a firmeza dos gestos - até para interromper o entrevistador e ficar senhora do tempo - e a tibieza da fala sobre sua atitude em relação ao escândalo-mor do PT.

Chamou o mensalão, um crime, de "erro" e não convenceu sobre a decisão de permanecer no governo "combatendo por dentro". Inclusive porque saiu por ter perdido outra batalha, a do meio ambiente.

Mano a mano. O PT morre de vontade, mas sabe que não pode arrumar contencioso com a Rede Globo.

O presidente Lula deu um sinal, que nem de longe dá a dimensão do descontentamento real, ao reclamar do tratamento dado a Dilma Rousseff na entrevista do Jornal Nacional. Lula disse que faltou "gentileza".

Na verdade, Lula e o PT se ressentem mesmo é da falta de privilégio e do deslumbramento acrítico que havia quando Lula era o candidato, notadamente em 2002.

O PT reivindica o direito de "amadurecer" à medida que vive experiências governamentais, mas não dá aos outros o direito de amadurecer a maneira de lidar com o partido.

Petistas agem como pragmáticos e esperam ser tratados como ideólogos. Acham injustas quaisquer cobranças, pois acreditam que as pessoas têm a obrigação de olhá-los com a tolerância devida aos inimputáveis.

Mau jeito. Dizer que o presidente Lula ficou "contrariado" com a chancela do Brasil às sanções impostas pela ONU ao Irã vale tanto quanto afirmar que ele ficou "irritado" como ocorre sempre que há um fato desfavorável.

Ou seja, não vale nada, além do uso de um adjetivo. Voto vencido nas Nações Unidas, ou o Brasil assinava ou quedava-se ao isolamento sem resultados.

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