Wilton Junior/Estadão - 16/02/2022
Wilton Junior/Estadão - 16/02/2022

Iphan vistoria impactos das chuvas em imóveis históricos de Petrópolis, a ‘Cidade Imperial’

Deslizamentos deixaram dezenas de mortos na serra do Rio de Janeiro; município foi destino de veraneio da monarquia e reúne imóveis tombados na esfera federal

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2022 | 22h56

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) divulgou nesta quarta-feira, 16, que técnicos avaliam os impactos das chuvas intensas nos imóveis tombados de Petrópolis, também chamada de “Cidade Imperial”, com construções do século 19. O município foi atingido por um temporal na terça-feira, 15, que resultou em dezenas de mortes. Os trabalhos de buscas em diferentes partes do município seguem em andamento.

Até o momento, não há um balanço oficial do patrimônio histórico afetado. “Diante das consequências do desastre para áreas tombadas na cidade, o corpo técnico do Instituto está promovendo vistorias para avaliar o impacto das chuvas para o patrimônio cultural local”, disse o Iphan em nota, na qual lamenta o que chama de uma “tragédia” e presta solidariedade à população e aos familiares e amigos das vítimas. 

O termo “museu à céu aberto” é utilizado para descrever a cidade. No comunicado, a autarquia federal informa que o escritório técnico que mantém na região (em um anexo do Palácio Rio Negro) “não tem condições de funcionar presencialmente”, sem informar os danos. No sábado, 12, já havia divulgado não estar com uma linha telefônica operante, também por causa das chuvas.

“Herdeiro das terras adquiridas pelo pai, Dom Pedro II promoveu a urbanização da cidade e a transformou na sede da corte imperial nas temporadas de veraneio. Com extensas áreas protegidas a nível federal, Petrópolis reúne história, paisagismo e excelência arquitetônica, constituindo um dos principais marcos do Patrimônio Cultural Brasileiro”, destacou o instituto.

O centro histórico de Petrópolis é um dos oito “conjuntos urbanos” tombados pelo Iphan no Rio de Janeiro. O reconhecimento ocorreu primeiramente no eixo da Avenida Köeler (que até hoje concentra o patrimônio mais preservado e fica nas proximidades do leito do Rio Quitandinha), em 1964, e, nos anos 1980, foi estendido a outras edificações. 

Segundo o Iphan, o conjunto reúne imóveis da segunda metade do século 19 e do início do século 20, com estilos variados, como neoclássico final, romântico (chalés) e eclético. O tombamento inclui as Avenidas Sete de Setembro, Tiradentes e Ipiranga, as Ruas São Pedro de Alcântara e Raul de Leoni, a Praça Visconde de Mauá, a Catedral de São Pedro de Alcântara e diversas casas.

O Museu Imperial é sediado hoje no antigo Palácio Imperial, construído por determinação de D. Pedro II, em 1945, cuja obra levou 10 anos. Com estilo neoclássico, foi uma das residências favoritas do imperador. Já a catedral estava em restauro, com custo de R$ 13,1 milhões e com entrega estimada para junho.

Entre os imóveis de destaque, estão o Palácio de Cristal (localizado na Praça da Confluência), montado com estrutura desenvolvida na França e encomendado pelo Conde D’Eu, marido da Princesa Isabel, com inauguração em 1884. Hoje, pertence à Prefeitura. Outro exemplo é a Casa de Santos Dumont, atual museu em homenagem ao aviador, que projetou o imóvel (um chalé, de 1918), que utilizava como destino de veraneio. 

Determinada em decreto imperial assinado por D. Pedro II em 1843, a fundação da cidade ocorreu algumas décadas após a passagem de D. Pedro I pela região durante uma viagem, após a qual comprou terras no entorno. A determinação previa a construção do futuro Palácio Imperial, a urbanização do que seria a Vila Imperial (centro histórico) e a obra da catedral e de um cemitério.

 A cidade manteve o prestígio mesmo após a Proclamação da República, sendo a capital do Rio de Janeiro de 1894 a 1903, como destaca texto veiculado pelo Iphan. Há mais de 100 anos, foi a residência de aristocratas e figuras de destaque nacional, como a artista e primeira-dama do País Nair de Teffé e do jurista Rui Barbosa, dentre outros.

Além dos imóveis tombados, o município tem ao menos sete sítios arqueológicos históricos cadastrados no Iphan: Sítio Histórico Paulo Hungria Machado, Fazenda Branca I e II, Sítio do Engenho, Sítio do Vané e Pantanal I e I. Nos locais, foram encontrados materiais variados, como louças, fornos e estruturas de construções.

Em janeiro, as intensas chuvas que atingiram Minas Gerais causaram o desmoronamento de dois casarões históricos em Ouro Preto, parte do conjunto considerado patrimônio mundial pela Unesco. Imagens esculpidas por Aleijadinho também foram afetadas em uma das seis capelas do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas.

 

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