Isolado, Ciro ataca o próprio partido

Por meio de artigo publicado em seu site, deputado cearense pressiona o PSB a decidir sobre sua candidatura à Presidência

Eugênia Lopes e Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2010 | 00h00

Depois de mais de 15 dias isolado, sem sequer ir à Câmara, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) decidiu ontem pressionar publicamente seu partido a decidir sobre sua candidatura à Presidência. Ciro fez um desabafo em seu site, em artigo intitulado A história acabou? Uma reunião da cúpula do PSB, na próxima semana, deve definir o futuro da candidatura Ciro.

"O que é o PSB? Um ajuntamento como tantos outros, ou a expressão de um pensar audacioso e idealista sobre o Brasil? Vai se decidir isto agora", escreveu o deputado. "Eu cumprirei com disciplina e respeito democrático o que decidir meu partido. Respeito suas lideranças. Mas, tenham meus companheiros clareza: eu não desisto! Considero meu dever com o Brasil lutar até o fim. Se for derrotado, respeito. Mas amanhã algum brasileiro mais atento dirá que alguns não se omitiram quando se quis tirar o povo da jogada."

O secretário-geral do PSB, senador Renato Casagrande (ES), minimizou as críticas de Ciro e pediu ontem para o deputado ter "um pouco mais de paciência". "Nós vamos decidir nos próximos dias sobre a candidatura. Nós compreendemos a aflição dele (Ciro), mas não é uma decisão fácil", argumentou o senador.

As lideranças do partido atribuem o texto ao temperamento explosivo de Ciro e à necessidade de pressionar os colegas de legenda à medida que a homologação das candidaturas se aproxima. "O Ciro é um craque. E quem joga com craques no time precisa aprender a acomodá-los", amenizou o deputado Márcio França, presidente do PSB em São Paulo.

O artigo, contudo, poderá causar ainda mais danos a uma pretensão presidencial já bastante ameaçada. Políticos do PSB julgaram que Ciro adotou um "tom messiânico" que "atrapalha mais que ajuda".

Líderes ressaltam que as avaliações de Ciro têm se mostrado falhas. A princípio, ele teria apostado na estagnação de Dilma Rousseff (PT) nas pesquisas e depois na saída de José Serra (PSDB) da disputa. Ambas as previsões falharam.

Os socialistas afirmam ainda que é impossível decidir sobre a candidatura de Ciro sem "discutir a questão" com o presidente Lula. Parte do partido é favorável ao lançamento da candidatura presidencial do deputado, mas outra parcela significativa é contra e quer fechar uma aliança formal em torno da candidatura da petista Dilma Rousseff.

"Uma candidatura própria tem aspectos positivos, com uma exposição nacional do partido", disse o líder do PSB na Câmara, Rodrigo Rollemberg (DF). "Mas uma candidatura própria isolada, com poucos apoios políticos, pode ter consequências negativas nos Estados."

Pressão. Ao pôr o PSB contra a parede, Ciro faz um desabafo sobre sua situação política. "Jamais imaginei, após 30 anos de vida pública, viver uma situação política como a em que me encontro. A pouco mais de 60 dias do prazo final para as convenções partidárias que formalizam as candidaturas às eleições gerais de 2010, não consigo entender o que quer de mim o meu partido", disse o deputado. As convenções para definir os candidatos nas eleições de outubro vão do dia 10 a 30 de junho.

No artigo, Ciro criticou novamente a aliança do PT com o PMDB. "E estas transas tenebrosas de PT com PMDB é o melhor que nossa política pode oferecer como exemplo de prática aos nossos jovens?", indagou.

Recriminou ainda o caráter plebiscitário dado à corrida presidencial, com as candidaturas de Dilma e Serra. Lembrou que os partidos que lançaram candidatos próprios cresceram, enquanto os que ficaram a reboque de outras legendas "definharam".

Para Ciro, a retirada de sua candidatura não é boa para o País. "A quem interessa tirar do povo as opções que no passado recente permitiram a um sindicalista chegar à Presidência? A história acabou? Não há mais o que criticar ou discutir? Oito de Lula, quatro de Dilma, mais oito de Lula é o melhor que podemos construir para o futuro de nosso País?"

PARA ENTENDER

Escolha da chapa será em junho

Os partidos políticos e coligações têm de 10 a 30 de junho, de acordo com a Justiça Eleitoral, para realizar convenções internas para definição dos candidatos que vão compor a chapa. Este ano, estarão em disputa os cargos de presidente e vice, governadores e vices, senador e deputados federal e estadual. Depois disso, têm prazo de 5 dias para registrar as candidaturas no TSE. A partir de 6 de julho, é permitida propaganda eleitoral.

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