Polícia Federal/Divulgação
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Italiano da Camorra foi sócio de tradicional boate de luxo no Recife

Casa noturna, localizada no bairro de Boa Viagem, é famosa pelos shows para adultos; vizinhos descreveram Pasquale Scotti, de 56 anos, como um homem 'simples e discreto'

Monica Bernardes, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 17h17

RECIFE - O italiano Pasquale Scotti, de 56 anos, que estava foragido havia 29 anos e foi preso nesta terça-feira, 26, no Recife, foi sócio da casa Sampa Night Club, uma das mais tradicionais boates de luxo da cidade, localizada em Boa Viagem, que realiza shows adultos. Ele também é sócio de uma empresa de importação de bebidas e alimentos italianos. As informações são da Polícia Federal.

Um dirigente da boate disse ao Estado sob condição de anonimato que Scotti foi sócio por alguns meses quando seu pai era o dono da boate há 20 anos. Conforme os investigadores, não há nenhuma relação desse ex-parceiro de negócios, já morto, com a máfia.

O pedido de prisão no Brasil foi feito pelos delegados federais da Interpol e autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em menos de 24 horas. A identificação foi possível graças à comparação de impressões digitais. A PF não divulgou maiores detalhes sobre como foi feita a localização do foragido.

O homem foi surpreendido pelos policiais quando deixava os dois filhos - frutos do casamento com uma brasileira - na escola, na zona oeste da cidade. A movimentação da PF chamou a atenção das pessoas. "Os policiais foram discretos, mas vimos que havia algo errado quando menos três carros da PF encostaram no senhor, que estava com os filhos. Eles (policiais) não usaram de nenhuma agressão, e o senhor também não reagiu. Mas deu para ver como as crianças ficaram assustadas. Dois policiais ficaram com os meninos, enquanto o pai era colocado no carro da PF", descreveu a dona de casa Hilda Paes. 

Depois de prestar depoimento por mais de quatro horas na sede da PF, no centro, ele realizou exame de corpo de delito e foi encaminhado, no começo da tarde, para o Centro de Observação e Triagem (Cotel), localizado no município de Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, onde deve aguardar a definição de seu próximo destino: a sede da PF em Brasília ou a extradição direta. O italiano foi condenado pelos crimes de porte ilegal de armas de fogo, resistência, extorsão e 26 homicídios, crimes cometidos entre 1980 e 1983.

O delegado da PF Valdecy Urquiza afirmou que o italiano aparentemente passou por cirurgias estéticas. "Ele disse em depoimento que fazia questão de esquecer do passado dele, que Pasquale Scotti não existia mais para ele, apenas Francisco de Castro." No depoimento, o italiano disse que a família brasileira não sabia de sua identidade real e que fugiu da Itália para não ser morto.

Vida simples. Scotti morava havia 28 anos no bairro do Sancho, um bairro tranquilo e arborizado, onde ainda é comum a presença de casas espaçosas em vez de prédios. Ainda segundo a PF, ele possuía CPF, habilitação e até título de eleitor. 

Tido como um homem "simples e discreto", Scotti costumava caminhar e brincar com seus filhos pelas redondezas. "Jamais imaginaria que havia algo de errado com ele. Todos os dias ele deixava os meninos na escola e era comum vê-lo passeando com a família por aqui. Sempre cumprimentava as pessoas e não mostrava sinais de riqueza. Parecia que vivia com conforto, mas nada de ostentação. Ficamos todos muito assustados", destacou o proprietário de um ponto comercial frequentado pela família do italiano. 

Histórico. Segundo a Interpol, Scotti tem uma personalidade suave e implacável, de laços estreitos com os serviços secretos. Desde 1985, estava na "maior lista de procurados" do Ministério Italiano do Interior por homicídio, ocultação de cadáver e outros crimes. Em 17 de janeiro de 1990, um mandado de captura internacional foi emitido contra ele, para ser preso para a extradição.

Em janeiro de 2005, o italiano recebeu uma sentença de prisão perpétua por uma série de 26 assassinatos registrados entre os anos de 1982-1983, durante a guerra entre a Camorra NCO e a Nuova Famiglia. Chegaram a ser feitas especulações de que ele teria sido morto por facções rivais na Camorra, por ter virado testemunha do Estado ou por saber demais sobre o envolvimento de políticos e serviços secretos. Scotti é o 15º estrangeiro preso pela Interpol no País neste ano. "Queremos deixar bem claro que o Brasil não é uma opção de refúgio tranquila", disparou o delegado Urquiza. 

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