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Itamaraty, o retorno

Soa algo simplista a interpretação de que o voto do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU em favor de uma investigação sobre violações cometidas no Irã seja mera expressão de divergências entre a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

As coisas postas assim dão a entender que o governo se mova pela dinâmica da disputa entre o governo anterior e o atual. O raciocínio absorve como correta a lógica maniqueísta, muito ao gosto do ex-presidente Lula, de que as circunstâncias obedecem a regras de fidelidade ou infidelidade partidária e, sobretudo, ignora a atuação da diplomacia brasileira até o advento da pirotecnia presidencial em vigor nos últimos oito anos.

Nesse período, tudo no governo girou em torno da figura de Lula, inclusive a condução da política externa por um chanceler também obcecado pela posição de protagonista permanente dos fatos.

O que tivemos com Lula e Celso Amorim é que foi o ponto fora da curva. O que temos agora, com Dilma e Antonio Patriota, é a retomada de retórica e atuação mais condizentes com a tradição do Itamaraty: a tomada de posições externas coerentes com os interesses internos do País sem brigar com a realidade nem adotar um ativismo em desacordo com as condições objetivas do Brasil para por vezes defender o indefensável.

O que se prega lá fora não pode ser diferente do que se pratica aqui dentro, é a conduta institucional preferida por Dilma e que havia sido substituída pelo personalismo de Lula.

Se o País subiu de patamar não foi apenas porque se fortaleceu economicamente, mas porque fez isso em regime democrático, o que inclui obviamente a defesa do respeito aos direitos do homem. Em todas as nações sem distinção.

Com os dados à disposição parece precipitado afirmar que a política externa do País tenha sofrido uma guinada. Por ora o que se vê é uma mudança nas ênfases e nos procedimentos tendo em vista a retomada de valores essenciais em regimes de liberdade, a volta, digamos assim, à normalidade.

É o que está dito no voto na ONU: "O Brasil acredita que todos os países, sem exceção, têm desafios a serem superados na área de direitos humanos e espera que os principais copatrocinadores dessa iniciativa (o envio de um relator especial ao Irã) apliquem os mesmos padrões a outros possíveis casos de não cooperação com o sistema de direitos humanos das Nações Unidas".

A ideia não é divergir de Lula, mas restabelecer a coerência que se espera, quando a oportunidade surgir, se aplique também a aliados caros ao Brasil. Cuba e Venezuela, por exemplo.

Útil ao agradável. A respeito de supostas divergências entre Lula e Dilma convém prestar atenção ao seguinte: enquanto ele certamente se mantém absoluto no que tange ao paladar dos mais pobres e dos remediados emergentes, ela vai conquistando a classe média dita assim tradicional, que vê na conduta da presidente um salto de qualidade em relação ao antecessor.

Na hora de uma disputa eleitoral, Lula e Dilma estarão juntos no mesmo projeto de poder e será muito útil a ambos a conjunção desses eleitorados.

Se essa percepção não estiver equivocada, nas próximas eleições a oposição terá de cortar um dobrado para reunir condições não de vitória, mas de competitividade.

Carne ou peixe? O prefeito Gilberto Kassab discorda da avaliação aqui exposta, segundo a qual seu PSD nasce sob a égide da falta de identidade por se declarar ao mesmo tempo disposto a "ajudar" o governo e manter a parceria com o PSDB, maior partido de oposição.

Kassab insiste no conceito da "independência" e argumenta que o partido não tem identidade definida porque ainda está em fase de formatação. "A partir de agora é que vamos definir o perfil doutrinário da legenda", diz.

Convenhamos, porém, que a apropriação (indevida, segundo a família Kubitschek) da sigla JK não tenha sido um primeiro passo que propicie uma boa imagem.

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