Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Itens mais preciosos do Museu Nacional queimaram, dizem funcionários

Estudantes da UFRJ e funcionários do museu afirmam que prédio estava em más condições há décadas; eles acreditam que o incêndio destruiu o fóssil de Luzia, múmias e diários da Princesa Isabel

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 12h22

RIO - Estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e funcionários do Museu Nacional confirmaram nesta segunda- feira, 3, que o prédio, destruído pelo fogo na noite desse domingo, estava em más condições há décadas. "Eu me sinto num velório. A sensação é de ter perdido um parente próximo", disse o biólogo Antonio Carlos Neves, de 33 anos, que cursou mestrado na UFRJ.

Ainda é possível ver focos de incêndio no imóvel. Mas a direção disse que "há esperança" de se recuperar parte do acervo, e alguns itens já foram resgatados. O museu reunia mais de 20 milhões de itens.

Desolados, Neves e três colegas, que preferiram não ter a identidade divulgada, disseram acreditar, pelas condições dos escombros e desabamentos ocorridos nos três pavimentos, que os principais itens do conjunto museológico se perderam: três múmias egípcias, o crânio de Luzia, o primeiro do continente, as ossadas de baleia jubarte e do dinossauro conhecido como "dinoprata", os diários da Princesa Isabel, o mobiliário imperial, a coleção de documentos da Imperatriz Teresa Cristina, os afrescos de Pompéia. 

Assoalhos originais do século 19 falhos, infestação de cupins, fiações elétricas aparentes, temperatura e luminosidade inadequadas para o acondicionamento dos itens das coleções, entre outros problemas estruturais, foram listados pelos funcionários como questões antigas. "A verba nunca foi suficiente; este ano, piorou muito. Coleções de entomologia, insetos, aranhas, crustáceos e moluscos tinham problemas", disse uma bióloga.

Bombeiros disseram que as paredes externas têm espessura de cerca de um metro, o que os leva a crer que não há risco de desmoronamento. Já internamente, o cenário é de destruição quase total, com focos sendo avistados de fora.

A direção do museu requer que o governo federal ceda contêineres para que o trabalho possa ser retomado e que o orçamento de 2019 tenha dotação específica para o museu. "Nunca escondemos os nossos problemas. Queremos a Polícia Federal aqui dentro apurando as causas. Aos culpados ainda vamos apontar os dedos. É despertadora a frustração. Lamentavelmente não tivemos a deferência da presença de ministros nos 200 anos do museu", disse o diretor, Alex Kellner, ao comentar a carência de recursos do governo federal para o museu e a ausência de autoridades por ocasião do bicentenário da instituição. 

Funcionários entraram no meio das chamas para salvar parte do acervo 

Um grupo de funcionários do Museu Nacional entrou no prédio em chamas na noite de domingo, 2, para tentar salvar o que fosse possível do acervo de 20 milhões de itens. Segundo relatos, de 30 a 40 servidores, inclusive aposentados, entraram no imóvel durante o incêndio, que começou às 19h30 de domingo e deve permanecer em fase de rescaldo por mais dois dias. 

Os funcionários se deslocaram até o museu, no Rio, ao saber do incêndio pelas redes sociais, disse o biólogo Paulo Buckup. Ele conseguiu salvar "alguns milhares" de exemplares de moluscos descritos por pesquisadores dos séculos 19, 20 e 21.

O biólogo ficou das 20h30 até 22 horas na parte traseira do prédio, até que foi retirado por bombeiros. Ele descreveu um cenário de pavor, com fogo em andares superiores. Buckup afirmou que viu as chamas se iniciarem na parte do prédio logo atrás da fachada, entre o segundo e o terceiro andares. Ali funcionavam salas da administração, central multimídia, coleções de populações indígenas, e um manto imperial, segundo ele.

"Os funcionários foram heróis. Estávamos pensando nos nossos ancestrais pesquisadores. O que salvamos vai permitir a continuidade de pesquisas de colegas. Na hora só pensei que ali estavam a minha vida e também a vida de colegas. Consegui tirar alguns milhares de animais, mas nada perto do que queimou", lamentou Buckup, que pesquisa evolução de peixes. O material de trabalho do biólogo não estava no prédio.

Dentro do prédio, além de coleções próprias, estavam itens em comodato enviados pela Casa da Marquesa de Santos, que se encontra em obras. São peças de mobiliário do século 19 e que provavelmente se perderam por completo.

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