Jacarés invadem as ruas. E são bem recebidos

Répteis de até 3 metros têm sido levados pelas águas até canal do Recreio dos Bandeirantes; gestora de parque nega superpopulação

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

19 de maio de 2009 | 00h00

A cena insólita acontece a 40 minutos do centro do Rio. Jacarés de até 3 metros nadam ou tomam sol no Canal das Tachas, que divide a Rua Professor Hermes de Lima - com seus prédios de luxo e mansões -, no Recreio dos Bandeirantes, na orla da zona oeste carioca. Mães com crianças, estudantes a caminho da escola e banhistas andam tranquilos, aparentemente indiferentes aos animais. "Após um dia de chuva, encontramos sempre um deles perdido na rua depois de ser levado pelas águas. Viraram atração turística, famílias inteiras param para olhar", conta a arquiteta Fernanda Cabral, de 33 anos. Sem medo, ela caminha ao lado dos jacarés, com a babá e as filhas pequenas. O canal liga a Lagoa das Tachas à Lagoa de Marapendi, ambas habitadas pelos répteis. O Parque Ecológico Chico Mendes contabilizou 110 jacarés na Lagoa das Tachas, situada em seus limites, mas desconhece o número de animais da Lagoa de Marapendi, cuja área de 3,7 km² vai do Recreio dos Bandeirantes até a Barra da Tijuca. Há dois anos gerindo o Parque Chico Mendes, a bióloga Denise Monsores garante que a convivência entre os moradores e os jacarés é pacífica, pois a espécie - papo-amarelo - não é agressiva. Mas sustos são inevitáveis. "Já aconteceu de uma moradora ligar para pedir que resgatássemos um jacaré que foi parar na piscina dela. A consciência ecológica da vizinhança é boa." Denise apostou em educação ambiental para evitar agressões e tratamento inadequado aos animais. "Ainda há pessoas que jogam carne vermelha para eles, mas a dieta deve ser à base de pequenas aves, peixes, libélulas e caramujos."O pedreiro Nilton Santana, de 46 anos, alimenta os animais com restos de peixe que consegue em restaurantes. Com um assovio e chacoalhadas em um saco plástico, ele consegue reunir cinco jacarés em segundos. "Um guarda municipal disse que eu não podia alimentá-los, mas, se não jogo peixes, os jacarés morrem de fome no esgoto." O cheiro do canal é fétido. O espelho d?água da Lagoa das Tachas também está coberto por gigogas - plantas que se reproduzem na poluição. A Companhia de Águas e Esgotos do Rio (Cedae) confirma que ambos recebem uma quantidade ainda não calculada do esgoto orgânico do bairro e suas seis favelas. "Saímos de zero e hoje tratamos 1,4 mil litros por segundo. Jacarés e capivaras voltaram até a procriar. Antes de 2014, todo o esgoto será tratado", diz o presidente da Cedae, Wagner Victer. Para o biólogo Mário Moscatelli, capivaras e jacarés sobrevivem porque são animais resistentes a ambientes contaminados. "Favelas e condomínios poluem associados à apatia catatônica dos órgãos públicos, que não fiscalizam lançamentos clandestinos." O presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Luiz Firmino Martins Pereira, confirmou que a Lagoa e o Canal das Tachas nunca foram alvos de blitze e anunciou para os próximos dias a remoção das gigogas e o levantamento dos pontos de despejo de esgoto irregular. SUPERPOPULAÇÃOA gestora do Parque Chico Mendes - o único que recebe os animais resgatados em todo o Estado - diz não saber quantos jacarés vivem na Lagoa de Marapendi, para onde muitos migram ou são levados pela água, e nega superpopulação. "Todos os animais encontrados são coletados, marcados com picotes na cauda, pesados e devolvidos (ao ambiente). A população está estável". Os moradores não querem a retirada dos jacarés, apontados como atração do bairro, mas pedem a instalação de uma cerca. "O cachorro de um morador já foi comido por um deles", afirma o universitário Rubens Monteiro. Denise trata de limpar a fama do mascote do parque. "Na verdade, uma jiboia comeu um poodle. O jacaré levou a culpa." O biólogo Moscatelli confirma que a cerca seria boa, mas para proteger os jacarés. "Nunca encontrei ninguém na região que foi mordido por um jacaré, mas já achei carcaças de jacarés e capivaras - mortos a tiros. Quem corre perigo são os animais."

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